"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
04/08/2007 20:56
Acidente da TAM: a única certeza
De todo o festival de hipóteses e afirmações supostamente definitivas que marca a cobertura com o acidente do Airbus da TAM, apenas uma coisa é certa: com todas as evidências que vão surgindo, inclusive com a gravação do diálogo da cabine, não é possível condenar ninguém. Nem inocentar. Nessa cobertura, parcela da mídia deixou-se conduzir pela ânsia de associar o acidente em Congonhas ao caos aéreo no país e, assim, responsabilizar as condições da pista e o governo federal.
Faça o que fizer a partir de agora, essa mídia já errou. Contra ou a favor do governo, todos deixaram-se levar precipitadamente a uma disputa de adivinhações cujo verdadeiro tema de fundo é apenas um: culpar ou não culpar o governo Lula. A dúvida sobre o que ocorreu foi trocada pelas certezas. O jornalismo criterioso e prudente, baseado em evidências, no confronto e na interpretação minuciosa de informações, foi substituído pelo fla-flu da manipulação política.
Como não deu certo, boa parte da mídia atravessa agora constrangida uma fase de esconder ou explicar porque, com base nas informações existentes, não se sustentam as conclusões que ela mesma havia sugerido. Apesar de num primeiro momento os veículos terem comprado a possibilidade de falha humana, os especialistas, peritos e as máquinas de gravação que é provável que a pista não tenha causado o acidente.
A essa altura já é possível, então, chegar a um juízo final, sob o ponto de vista da ética jornalística. Seja qual for o desfecho, a cobertura foi um fracasso, repetindo, como resultante geral, desvios já ocorridos em coberturas anteriores. Os veículos jornalísticos moveram-se em grupo pautando-se pela discussão da culpa ou inocência de Lula. Isso inclui todos, a favor ou contra o governo. Se houve órgãos que se destacaram mais do que outros na escolha de hipóteses erradas (expressando interesses claramente políticos) para basear seu trabalho, não houve nenhum (inclusive o iG) que se destacasse pelo oposto, ou seja por evitar avançar conclusões feitas com base em apurações de qualidade duvidosa.
Isso só reafirma o valor de trabalhos jornalísticos como o de Fernando Rodrigues, da Folha (que teve acesso ao diálogo na cabine do avião na hora do acidente), e Marcio Aith, da Veja. Trouxeram a público informações inéditas, na contramão do que prevalecia na cobertura, mas que nem assim permitem qualquer conclusão sobre responsabilidades, tomada com base em fatores isolados.
enviada por Mario Vitor Santos
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