"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
25/08/2007 19:59
Blow-up ou Fotojornalismo no STF
A publicação quinta-feira, 23, das fotos feitas por Roberto Stuckert Filho, do jornal O Globo, dividiu opiniões. Enquanto todos ouviam, no plenário do STF burocraticamente a longa denúncia e as defesas dos advogados, Stuckert rompeu a rotina. Ele tinha uma missão e a realizou por algumas horas. Da platéia, Stuckert registrou, com teleobjetiva, as telas expostas dos computadores de alguns ministros, flagrando conversas entre eles.
As fotos registram os diálogos eletrônicos entre os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski pela rede interna do tribunal, enquanto os procedimentos normais do tribunal ocorrem ao fundo. Há diálogos também com assessores sobre os casos em exame, mas reações às articulações para nomeação de um novo ministro, opiniões sobre grupos e simpatias que os ministros têm (ou não) entre eles, um comentário sobre a ascensão social de um dos juízes (não por acaso o único negro) e até uma insinuação de troca de votos entre o ministro Eros Grau e o governo Lula em torno da nomeação de um novo membro da corte, que deveria ser investigada.
Houve quem dissesse, como o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que a divulgação das fotos violava direitos constitucionais dos juízes, pois quebrava a sua privacidade. Mas será que um juiz tem direito a essa privacidade quando está em ambiente público, exercendo função pública diante do país, tratando de questões de evidente interesse público, e ainda expõe, mesmo que sem intenção, as dúvidas e os mecanismos da tomada de decisões para o seu voto?
Não ficou claro se ao editar as fotos, O Globo fez algum corte suprimindo partes dos diálogos, nem o critério usado, se isso ocorreu. Mas tudo o que aflorou tem relevância para que o público se informe e não se deixe impressionar pela imagem de solenidade, isenção e neutralidade dos tribunais. Não há revelações sobre temas da vida pessoal de cada ministro.
A privacidade dos juízes e de outras autoridades deve ser inviolável em certos casos, que têm a ver com o local, o momento, a pessoa, a função e a natureza do assunto. Os meios de obtenção da informação também são importantes. Nesse caso, foram usados meios aparentemente legais. As fotos foram obtidas sem qualquer obstáculo, nem invasão de recinto privativo do ministro. O tema é relevante. A reação do STF foi grave: a entrada de fotógrafos no recinto foi proibida no dia seguinte. Só trabalharam os do próprio tribunal.
A fotografia jornalística muitas vezes é tratada como ilustração e adorno, como mero complemento ao trabalho, supostamente mais articulado, dos repórteres de texto. Nas hierarquias, o texto, considerado mais intelectual, suplanta a imagem, vista como mais artística. Neste caso, as fotos do Globo trazem em si toda a informação, textual e fotográfica. Um momento especial, em que a imagem já é o próprio relato e vice-versa e o trabalho do repórter de texto constitui mero complemento ao faro do repórter fotográfico.
enviada por Mario Vitor Santos
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)