"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

16/08/2007 08:23

Crise: na ilha de tranqüilidade ou na porta do baile?

A divulgação de novas informações sobre a economia norte-americana hoje, e mais uma queda nas bolsas podem dar agravar as previsões sobre a gravidade e a duração da crise financeira internacional. Até agora, o Brasil tem sido informado, por fontes oficiais e especialistas de fora do governo, de que está a salvo. Será? A cobertura do iG usa textos vindos de agências. Deixa muito a desejar num campo fundamental, o do jornalismo local. Fala da queda das bolsas, das palavras e dos atos das autoridades, mas não traz informações mais próximas.

Há muito o que mostrar sobre as ameaças que podem vir a rondar o Brasil. Até agora, venceu uma avaliação otimista, a respeito da capacidade de o país seguir em frente sem ser afetado. A crise é coisa de americanos e desenvolvidos. Será que é isso mesmo? Há aí um grande campo para a reportagem e para o trabalho de analistas.
Além das instituições internacionais, o iG utiliza agências brasileiras como Valor on-line, Agência Estado e Agência Safras. Essas agências realizam um acompanhamento dos principais indicadores. São boas para fornecer elementos para as manchetes, dizer se as bolsas estão caindo ou subindo, descrever como variam as cotações entre as moedas. Mas quando se trata de se aproximar da vida concreta das pessoas expostas aos efeitos da instabilidade, de prestar serviços mais específicos, nada substitui a reportagem produzida em função da situação no Brasil, ou de um olhar brasileiro sobre a crise nos EUA, por exemplo.

Falta também tratar a informação de acordo com os diversos públicos. Para cada grupo de leitores deve-se dar um enfoque diferente. Certos leitores talvez não estejam tão interessados na chamada macroeconomia, mas na possilidade dessa crise interferir no preço dos alimentos, nos juros bancários, no valor dos automóveis ou nas chances de emprego em função de uma possível diminuição do crescimento mundial. Outros podem planejar comprar imóveis ou reformar a casa, mas precisam de mais informações se é o momento para contrair um empréstimo, por exemplo. A preocupação mais simples, e não por isso menos importante, é se o caos nos mercados do exterior vai interferir no fechamento das contas do mês.

Já o leitor especializado procura ver esse mesmo assunto de maneira mais ampla e aprofundada, para se adiantar contra os efeitos da crise, por exemplo, numa oferta de ações de uma empresa ao mercado. A crise ajuda a revelar a capacidade de decisão de especialistas no mercado financeiro e, por isso, quanto mais informação aprofundada, melhor.

A possível novidade é que, pela primeira vez em muitas décadas, o Brasil aparenta ter indicadores econômicos gerais mais confortáveis do que as chamadas economias centrais, como os Estados Unidos. Isso não tem nada a ver com situação da população que enfrenta desemprego elevado e baixos salários. De qualquer forma, diz-se que a crise deve afetar mais os países desenvolvidos do que os mais atrasados e isso é uma novidade para o jornalismo brasileiro, dependente e marcado pelo complexo de inferioridade, sempre à busca de exemplos e referências.

Nos últimos anos, graças à valorização de algumas matérias-primas, como soja ou petróleo, o Brasil está menos exposto quando ocorrem crises em mercados internacionais. A maneira como essa situação é noticiada tem reflexos políticos aqui no Brasil, a quase um ano de mais uma eleição municipal. Os marqueteiros já pensam no que vão usar nas eleições. A versão mais favorável ao Planalto tem prevalecido. O Brasil é, enfim, uma ilha de tranqüiilidade num mar revolto? Ou, na verdade, a festa acabou e o país não aproveitou nada dela? Só o jornalismo poderia antecipar essas respostas. Mas este já estava escasso antes da crise. A esperança é que ela estimule alguma mudança.

enviada por Mario Vitor Santos






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