"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

16/08/2007 10:48

Devolução jornalística

As crianças foram expostas a 800 mil brinquedos perigosos, pagos a preços altíssimos em que direitos de propriedade valem muito mais do que o material, artigos impostos ao consumidor por uma estrutura de heróis, filmes, desenhos animados, estruturas publicitárias assumidas ou subliminares. Narrativas que levam as crianças a crer e a desejar. Agora, diz-se que a devolução dos valores ou artigos pela empresa é cheia de complicações e discrimina o consumidor no Brasil. E o principal título da seção de Economia do iG sobre esse assunto tem o jeito afirmativo de um anúncio oficial da empresa: "Consumidor da Mattel receberá o dinheiro de volta".



Assim, de maneira direta. Não se esclarece no título que essa é uma (mais uma?) promessa da empresa. O iG afirma no título da capa e da reportagem interna que isso vai acontecer: a empresa vai devolver o dinheiro. Acredita que isso vai acontecer e quer que o leitor também acredite. Ou seja, quando devia distanciar-se, dizer claramente que quem declara que vai pagar é a Mattel, o iG contamina-se (sem trocadilho) com os problemas de credibilidade que afetam a empresa.

Justo agora, quando seria a hora de fazer jornalismo. Ou seja, é hora de sair a campo, falar com as famílias, checar os registros médicos para saber de casos de crianças que engoliram as peças ou que possam ter tido problemas compatíveis com algum tipo de contato com substância perigosa, cobrar das autoridades o controle do passado e do futuro. É hora de saber por que o processo de troca aqui é tão complicado, com os consumidores tendo que enviar os brinquedos pelo correio para avaliação, enquanto em outros países o consumidor deve apenas dirigir-se a uma loja. É hora de questionar os advogados e especialistas. E exercer jornalismo crítico, não oficial. Enfim, é um dos momentos em que o jornalismo, se não pôde ser feito antes, passa a ser obrigatório.



enviada por Mario Vitor Santos






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