"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

06/08/2007 12:29

iG e Wall Street Journal: tão longe, tão perto

O assunto da semana no noticiário econômico foi a venda do “The Wall Street Journal” (WSJ). É o mais importante diário econômico do mundo, com circulação de quase 2,6 milhões entre as versões impressa e on-line. O comprador, que pagou US$ 5 bilhões, é Rupert Murdoch, um australiano que já é dono do grupo Fox (cinema, TV, jornalismo etc) e de uma cadeia de jornais e TVs em diversos países, inclusive os sensacionalistas "The Sun" e “New York Post”, além do londrino “The Times”.

A negociação com a família Bancroft, proprietária do WSJ, vinha se desenrolando desde o dia 1º de maio, quando Murdoch anunciou sua oferta. A imprensa internacional acompanha os detalhes e os efeitos da transação ao longo desses meses. Os repórteres do próprio WSJ vêm cobrindo o assunto de maneira bastante independente (se bem que houve ao menos uma reportagem crítica do The New York Times questionando a imparcialidade do noticiário do Journal sobre esse assunto).

No dia em que o negócio foi oficializado, por exemplo, um repórter do WSJ declarou que havia razões para temer seriamente pelo futuro, ou seja, que a venda implicava riscos para a cultura de jornalismo independente existente na Redação. Lá, como em outros veículos, segundo se diz, os gestores da área administrativa e de negócios não influenciam decisões editoriais. Isso é responsabilidade exclusiva dos chefes da Redação, instruídos a usar critérios éticos de verdade e imparcialidade para defender a imagem da publicação. Esses princípios, segundo os quais o jornalista deve publicar tudo o que comprovar, valem também em relação às notícias que afetam tanto próprio veículo, como seus acionistas e controladores.

Agora, sob o comando de Murdoch, acusado de ter influído e destruído a qualidade editorial do “The Times” de Londres, os temores de perda dessa cultura de independência são tão ponderáveis que o novo dono prometeu submeter as decisões a um “conselho independente”, visando manter separação entre a Administração e a Redação. Em julho, o iG veiculou ao todo 42 reportagens e textos de opinião sobre a venda do WSJ, produzidos pelas agências internacionais e pelo “The New York Times”.

Enquanto isso, em paralelo, no Brasil, uma outra importante notícia de negócios tem merecido ampla atenção dos meios de comunicação, mas um tratamento diverso de parte do iG. A notícia envolve a possível, embora complexa, fusão entre a Brasil Telecom, proprietária do iG, e uma outra grande empresa de telefonia a Telemar (que atua em 16 Estados do país, em uma área que vai do Rio de Janeiro ao Amazonas), para a formação de uma grande empresa brasileira capaz de concorrer com outros gigantes do setor no Brasil e disputar potencialmente também na América Latina.

No dia 18 de julho, quase todos os veículos de comunicação divulgaram um fato relevante ligado a essa negociação maior. Os fundos de pensão de empresas estatais que são sócios da Brasil Telecom junto com o Citigroup ampliaram sua participação na empresa de telefonia comprando, por US$ 515 milhões, a parcela de 38% que a Telecom Itália antes detinha.

Na semana que passou a capa do iG destacou, por exemplo, o excelente desempenho registrado pela Brasil Telecom no primeiro semestre, mas não publicou nada a respeito da compra da participação da Telecom Itália na Brasil Telecom.

Agora, a partir desse negócio, abrem-se vários outros. Tanto que o ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse nesta quarta-feira, 1, que recebeu o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para começar a constituir um grupo de trabalho que, a partir desta semana, debaterá a origem da nova grande companhia de telefonia, o que envolve até alterações na regulamentação do setor.

Diz-se que a fusão das duas empresas faz muito sentido sob o ponto de vista da concorrência e da presença brasileira no setor de telecomunicações. Mas, há evidentemente muitos detalhes e complexidades que terão que ser superados.

Na empresa resultante, os fundos de pensão da empresas estatais vão ter participação provavelmente dominante. O ministro das Comunicações afirma que uma espécie de “ação de ouro” dará ao governo o controle sobre a empresa. Já há quem diga que isso é uma espécie de re-estatização. A agência Reuters, veiculada pelo iG, deu a informação, mas a Redação do iG não a recebeu. A direção do iG informa que não fez e não faria qualquer restrição a essa cobertura.

Sendo assim, está havendo uma omissão decorrente de desatenção ao noticiário relevante, enquanto se desenrolam negociações importantes na área da economia, do governo e da mídia. O iG está nas melhores (e nas piores) condições para acompanhá-la.

É necessário ter atenção aos temas sensíveis justamente nos momentos mais críticos, até quando são afetados os interesses dos próprios veículos, como procurou fazer até agora o “Journal”, talvez o jornal de economia de maior credibilidade no mundo. Lá dos EUA, o WSJ, aliás, justificando sua fama, foi o primeiro a publicar a notícia sobre o grupo que vai estudar a fusão Brasil Telecom-Telemar.

enviada por Mario Vitor Santos






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