"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

09/08/2007 19:20

Não deu no New York Times

O The New York Times é um dos jornais mais importantes e bem feitos do mundo, com uma audiência de 17 milhões entre a versão on-line e a impressa. As suas reportagens são conhecidas pela qualidade da apuração e pelo texto muitas vezes impecável. Disso resulta a credibilidade adquirida ao longo dos seus quase 156 anos (que serão completados em setembro). Tais atributos fazem do jornal um dos parceiros de maior prestígio do iG, que publica uma cota de oito textos diários, sempre com a marca do jornal aparecendo no alto da página. Há até uma área em que os textos do “Times” aparecem indexados. Entretanto, a qualidade dos textos pára na versão em inglês.

O iG publica textos traduzidos também da edição do dia anterior do NYTimes. Por isso, quem decide ler o conteúdo não pode esperar só notícias quentes, mas sim notícias de interesse. Exatamente por não ter o compromisso com a urgência característica da internet, o texto deveria ser inclusive melhor do que o do restante do Último Segundo (a área de notícias do iG), que às vezes é feito às pressas para dar a informação rapidamente. A única preocupação que a equipe que edita o “New York Times” no iG deveria ter é tornar o conteúdo acessível ao público brasileiro.

Palavras mal-traduzidas, erros de concordância, de ortografia, e de português em geral, povoam os textos. A falta de cuidado aparece aqui e ali em praticamente todos os parágrafos. É necessário ter um compromisso maior com a qualidade da redação entregue aos leitores. Trechos como "os grupos de direitos dos imigrantes (...) previu que as leis..." não podem ser outra coisa senão uma mostra de descaso com o produto. Com isso, a intenção de oferecer um serviço especial de qualidade perde-se no descuido. Um material nobre, de leitura sofisticada, cai em descrédito. O que deveria ser vantagem resulta em precariedade maior quando atinge um público exigente.

Veja abaixo alguns destes problemas, em diferentes notícias:

Governo irá fiscalizar contratação de imigrantes ilegais



- o texto está confuso: "elas a seguraram para esperar pelo resultado". "Elas" só pode ser "as regras". Então, quem as regras seguraram?


Tensões entre Clinton e Obama se intensificam



- "extraordinariamente tardes" é só um dos problemas que dificultam a compreensão do trecho
- erro de crase: "à poucos" (crase é uma junção da preposição "a" com o artigo "a"(s) ou com os pronomes demonstrativos que começam com "a". Ou seja: não se usa antes de verbos, advérbios e palavras masculinas) - veja aqui mais dicas sobre o uso da crase
- escolha errada de palavras: se a cena já aconteceu é na noite seguinte, não na próxima; o que são "confins amigáveis"? E o "equivalente legislativo"?


Mulheres no Japão ainda ficam para trás enquanto tentam progredir


(...)


- falta de cuidado evidente no uso de quatro "ela" no mesmo trecho
- problema com a escolha do verbo (a lei de oportunidades possui falhas, ou mesmo furos, mas não "é com furos")


Colapso de ponte nos Estados Unidos levanta questões sobre prioridades passadas



- Confusão nos pronomes: o colapso (que muda a cabeça das pessoas) foi tratado a seguir como "ela"; assim como estradas e pontes (que "foram vítimas" - e não "receberam") são tratadas como "eles".
- Não dá para entender o que o trecho que começa com "apesar dos picos históricos" quer dizer.


Publicar o NYT traz prestígio. Ao fazer isso, o iG busca informar melhor o seu leitor. O resultado, infelizmente, por questões de acabamento, fica aquém do planejado e do esperado. É preciso cuidar dos detalhes, do português (que não é nem de longe um detalhe), e assim usar melhor o material colocando-o na capa do portal. Para isso é preciso trabalhar para manter a excelência do produto oferecido pelo New York Times, mas não apenas dele. Há algo de grave no acabamento dos textos nobres do iG e, assim, em boa parte do portal.

enviada por Mario Vitor Santos






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