"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte

11/08/2007 14:44

Novos (des)caminhos da tradução

No dia seguinte à publicação aqui de uma nota criticando erros de tradução e de português em textos do The New York Times divulgados pelo iG, este ombudsman foi verificar se sua crítica resultou em alguma melhoria na qualidade da redação do material oferecido aos leitores.

Neste primeiro momento, para efeitos práticos, a impressão é que a crítica deste ombusdman foi ignorada. É o que se deduz da leitura da primeira reportagem no índice de textos do NY Times exibido pelo iG às 16h30 de sexta-feira (10/8). Há problemas sérios, que poderiam ter sido corrigidos com uma leitura mais atenta.

Leia o primeiro parágrafo da reportagem "Cruz Vermelha enfrenta críticas sobre ajuda às vítimas do Katrina" e veja se é possível entender. Depois disso, tente o segundo parágrafo.



- o texto tem muitos defeitos. Aqui são mencionados alguns que evidenciam a falta de cuidado. O primeiro parágrafo é incompreensível. Algum detalhe, como um "e" a mais (a frase provavelmente era “o programa tem sido muito severo e o dinheiro, limitado demais"), gerou a confusão.
- a ordem das palavras no início da primeira frase é esdrúxula ("um pouco conhecido programa"), pois mantém o jeito do original inglês de articular substantivo e adjetivo ("A little-known American Red Cross aid program..." Em português, a ordem natural soa muito simples: "Um programa pouco conhecido no Brasil".
- a palavra charities (no plural), que significa "instituições beneficentes", foi traduzida como "caridades", o que deixa o texto sem sentido.


Para não julgar somente por uma reportagem, este ombudsman analisou todas os textos traduzidos do "New York Times" publicados no iG desde a crítica anterior (leia abaixo) sobre traduções, feita na quinta-feira. Dos cinco textos divulgados na sexta-feira, dois estavam bem traduzidos: "Iraquianos de classe média fogem para a Jordânia, apenas para encontrar pobreza" e o editorial "Perseguindo a imprensa alemã". Eles não apresentam erros.

As outras três reportagens, incluindo a da Cruz Vermelha citada acima, estão repletas de erros de concordância e de crase. Confira trechos das duas notas restantes:

Comentário: Bono, ajuda internacional e céticos



- problemas nas vírgulas deixam o primeiro trecho entrecortado. Muito mais fácil seria trocar por "mas, recentemente, o cantor ficou perturbado ao falar em uma conferência na África."
- há erro no uso da preposição: vaiaram Bono, ou seja, "vaiaram-no" e não "vaiaram para ele"
- erro nos acentos em "ás vezes" (com acento agudo em vez de grave) e "concluí" (que não deveria ter acento algum)
- o que significa "superbo"? Seria mais uma importação de uma forma do inglês?


Comentário: Uma casa atrasa o desenvolvimento olímpico em Pequim



- erro de concordância no primeiro parágrafo: "Sun e sua irmã viram listas (...), mas não ousaram"
- construção ainda lembra o inglês: "a demolição não é novidade" (em vez de nova) e "a diferença é que Sun"
- A mesma cnstrução estranha aparece na tradução de uma declaração que resultou estranha: "Estou só esperando por eles demolirem". As pessoas esperam alguém demolir, não esperam "por alguém demolir".


A qualidade de um texto traduzido depende muito do tradutor, que não deve só encontrar o significado das palavras, mas reescrever frases inteiras na nova língua, sendo fiel ao sentido e às informações do original. Enquanto em outros portais a leitura do NYTimes é exclusiva para assinantes, no iG o conteúdo é aberto, o que só aumenta a importância desse trabalho. É preciso controlar melhor a qualidade desses textos. Seria bom também, como fazem outros veículos, publicar o nome dos tradutores junto ao trabalho. Assinar os textos é reconhecer co-autoria e pode resultar em mais rigor.

enviada por Mario Vitor Santos






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