"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

08/08/2007 17:12

O caso Richarlyson: “Ora bolas, se a moda pega”

O noticiário esportivo das últimas semanas tem destacado o caso do jogador meia Richarlyson, que está processando um dirigente do Palmeiras, que o teria chamado de homossexual durante um programa de TV. O caso ganhou proporções ainda maiores quando o juiz encarregado, Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, arquivou o processo numa sentença com argumentos e expressões inacreditáveis, em que faz alegações do tipo "futebol é jogo viril, varonil, não homossexual".

A respeito deste caso, a leitora Elenice Oliveira cobra uma cobertura mais aprofundada do iG. Veja abaixo a mensagem dela:

"Mário
Boa tarde
Em mensagem anterior esqueci de mencionar que este fato polêmico do jogador Richarlyson merecia mais informações e debates no IG. É uma sentença que não julgou o mérito do pedido, mas tem uma decisão com características de parcialidade. O que é inconcebível para um agente público, que tem a função de aplicar e distribuir justiça. Foi uma sentença que ao ler eu senti-me humilhada e triste com tanto preconceito por parte de um juiz. Os advogados alegam homofobia. Uma grande questão - se os advogados entraram com ação porque o diretor do Palmeiras afirmou que Richarlyson era homossexual, cabe uma pergunta: por que afirmam que a sentença é homofóbica se o pedido da ação tem como finalidade contestar a afirmação do hmossexualismo. Homofobia o que é? Há também a nota que Richarlyson será um militante político contra preconceitos. Esta notícia é excelente, porque os jogadores de futebol do Brasil são alienados politicamente e não se manifestam nem quando são ofendidos. Porque será? É desinformação? Medo do clube? Ou falta de consciência das suas responsabilidades como atletas? Como agem os atletas como o frances Thurran (não sei se é assim que se escreve), e Michael Jordan? Aliás o apresentador Milton Neves também contribuiu para que o fato da "indiscrição"do diretor do Palmeiras acontecesse. Espero ver esta notícia no iG, mas com mais conteúdo. Mário um abraço e bom trabalho."
Elenice

Trechos da decisão foram divulgados por diversos veículos. Mas nenhuma descrição consegue dar conta do teor da sentença, cuja íntegra está reproduzida abaixo. Vale lembrar que o iG tem acompanhado a história desde o começo, apesar de não esmiuçar o assunto em mais detalhes, como seria recomendável.

Processo nº 936-07

"Conclusão

Em 5 de julho de 2007. faço estes autos conclusos ao Dr. Manoel Maximiano Junqueira Filho, MM. Juiz de Direito Titular da Nona Vara Criminal da Comarca da Capital."

Eu, Ana Maria R. Goto, Escrevente, digitei e subscrevi.

A presente Queixa-Crime não reúne condições de prosseguir.

Vou evitar um exame perfunctório, mesmo porque, é vedado constitucionalmente, na esteira do artigo 93, inciso IX, da Carta Magna.

1. Não vejo nenhum ataque do querelado ao querelante.

2. Em nenhum momento o querelado apontou o querelante como homossexual.

3. Se o tivesse rotulado de homossexual, o querelante poderia optar pelos seguintes caminhos:

3. A – Não sendo homossexual, a imputação não o atingiria e bastaria que, também ele, o querelante, comparecesse no mesmo programa televisivo e declarasse ser heterossexual e ponto final;

3. B – se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados...

Quem é, ou foi BOLEIRO, sabe muito bem que estas infelizes colocações exigem réplica imediata, instantânea, mas diretamente entre o ofensor e o ofendido, num TÈTE-À TÈTE”.

Trazer o episódio à Justiça, outra coisa não é senão dar dimensão exagerada a um fato insignificante, se comparado à grandeza do futebol brasileiro.

Em Juízo haveria audiência de retratação, exceção da verdade, interrogatório, prova oral, para se saber se o querelado disse mesmo... e para se aquilatar se o querelante é, ou não...

4. O querelante trouxe, em arrimo documental, suposta manifestação do “GRUPO GAY”, da Bahia (folha 10) em conforto à posição do jogador. E também suposto pronunciamento publicado na Folha de São Paulo, de autoria do colunista Juca Kfouri (folha 7), batendo-se pela abertura, nas canchas, de atletas com opção sexual não de todo aceita.

5. Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. Há hinos que consagram esta condição: “OLHOS ONDE SURGE O AMANHÃ, RADIOSO DE LUZ, VARONIL, SEGUE SUA SENDA DE VITÓRIAS...”.

6. Esta situação, incomum, do mundo moderno, precisa ser rebatida...

7. Quem se recorda da “COPA DO MUNDO DE 1970”, quem viu o escrete de ouro jogando (FÉLIX, CARLOS ALBERTO, BRITO, EVERALDO E PIAZA; CLODOALDO E GÉRSON; JAIRZINHO, PELÉ, TOSTÃO E RIVELINO), jamais conceberia um ídolo seu homossexual.

8. Quem presenciou grandes orquestras futebolísticas formadas: SEJAS, CLODOALDO, PELÉ E EDU, no Peixe: MANGA, FIGUEROA, FALCÃO E CAÇAPAVA, no Colorado; CARLOS, OSCAR, VANDERLEI, MARCO AURELIO E DICÁ, na Macaca, dentre inúmeros craques, não poderia sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol.

9. Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si.

10. O que não se pode entender é que a Associação de Gays da Bahia e alguns colunistas (se é que realmente se pronunciaram neste sentido) teimem em projetar para os gramados, atletas homossexuais.

11. Ora, bolas, se a moda pega, logo teremos o “SISTEMA DE COTAS”, forçando o acesso de tantos por agremiação...

12. E não se diga que essa abertura será de idêntica proporção ao que se deu quando os negros passaram a compor as equipes. Nada menos exato. Também o negro, se homossexual, deve evitar fazer parte de equipes futebolísticas de héteros.

13. Mas o negro desvelou-se (e em várias atividades) importantíssimo para a história do Brasil: o mais completo atacante, jamais visto, chama-se EDSON ARANTES DO NASCIMENTO e é negro.

14. O que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal...

15. Para não se falar no desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio , por vezes com seu filho, avistar o time do coração se projetando na competição, ao invés de perder-se em análises do comportamento deste, ou daquele atleta, com evidente problema de personalidade, ou existencial; desconforto também dos colegas de equipe, do treinador, da comissão técnica e da direção do clube.

16. Precisa, a propósito, estrofe popular, que consagra:

“CADA UM NA SUA ÁREA,

CADA MACACO EM SEU GALHO,

CADA GALO EM SEU TERREIRO,

CADA REI EM SEU BARALHO”.

17. É assim que eu penso... e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!

18. Rejeito a presente Queixa-Crime. Arquivem-se os autos. Na hipótese de eventual recurso em sentido estrito, dê-se ciência ao Ministério Público e intime-se o querelado, para contra-razões.

São Paulo, 5 de julho de 2007"

MANOEL MAXIMIANO JUNQUEIRA FILHO

JUIZ DE DIREITO TITULAR

enviada por Mario Vitor Santos






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