"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
30/08/2007 15:03
Solidariedade 2.0
A capa do iG desta quarta-feira mostrou, durante várias horas, em destaque, a seguinte notícia: "Ator Pedro de Lara estaria com câncer, diz colunista de jornal". A informação não foi confirmada pelo humorista ou por qualquer pessoa próxima a ele. É assinada por um internauta e foi publicada no Minha Notícia, espaço que divulga notícias enviadas por leitores. A notícia é a reprodução de uma nota que saiu na coluna "Zapping". do jornal paulistano "Agora".
Em um espaço curto, o iG conseguiu assim atropelar várias vezes a ética e a boa técnica jornalística. Redigido no condicional, o texto não afirma que o humorista está ou que não está com câncer. Ou afirma sem afirmar. A rigor, é a divulgação de um rumor, um boato, um fato sem confirmação. Para agravar, o humorista, como informa o próprio texto, não quer tratar do assunto, que obviamente afeta a sua privacidade e a sua imagem pública. O iG deveria respeitar esse direito.
Em segundo lugar, o iG, ao publicar o texto enviado por um leitor, que reproduz algo publicado em um terceiro jornal, deveria primeiro confirmar a informação. Se não confirmasse, não deveria publicar rumores e suposições, especialmente em relação a assunto tão grave. Se a informação tivesse sido confirmada pelo iG com fonte confiável, isso deveria ser informado e a notícia não deveria ser redigida no condicional.
Antes ou depois de confirmar a informação, o iG deveria ainda considerar se deveria divulgar a informação, pois o humorista declarou não ter interesse em comentar (e menos ainda em divulgar) o assunto publicamente. Nada disso foi, ao que parece, considerado. O iG não esclareceu os seus procedimentos diante dessa delicada questão ética aos seus leitores. Talvez isso não tenha nem sequer passado pela cabeça dos jornalistas envolvidos. Se decidisse publicar, poderia ter repartido suas decisões com os leitores e isso resultaria em maior credibilidade junto aos mais exigentes e às fontes.
O caso levanta questões vastas e muito atuais, nessa época em que o envio de notícias produzidas por repórteres não-profissionais encontra abrigo fácil nas páginas dos portais. No iG, o espaço Minha Notícia, lançado em 2 de julho do ano passado, reúne as notícias enviadas por internautas. No aniversário de um ano, o Minha Notícia fez uma reportagem especial com internautas que escrevem para o site. O trabalho dos voluntários dá audiência para o portal. Os internautas conseguem assim se projetar, e ver publicado o que não aparece normalmente nos meios de comunicação, seja por falta de recursos dos veículos, por interessar apenas a um grupo restrito ou qualquer outra razão.
Nos quase 14 meses de existência, o Minha Notícia já conseguiu dar alguns furos nos jornalistas profissionais. Exemplos:
"Ex-menino de rua passa no exame da OAB ";
"Henry Sobel preso na Flórida";
"Morte do ex-vocalista do grupo Os Travessos";
"Acidente com trio elétrico do Chiclete com Banana"
Neste último caso, a equipe do Minha Notícia diz que a leitora foi testemunha do fato, ocorrido durante uma micareta na Paraíba. Mesmo tendo aguardado de sábado até segunda-feira a confirmação dos organizadores do evento para publicar a notícia, o Minha Notícia afirma ter sido o primeiro a noticiar.
A idéia do jornalismo colaborativo é boa e pode ser ainda mais bem utilizada, por exemplo, associando informações vindas dos internautas, desde que checadas com rigor, a informações garimpadas pelo próprio iG.
A internet dos leitores, porém, não é moleza. A equipe do Minha Notícia tem dois jornalistas, encarregados de avaliar o material que chega, confirmar com as fontes, confrontar relatos e publicar o que for aprovado. Recebe e média 40 textos por dia e publica 15.
Essa checagem é precária. No caso de Pedro de Lara, limitou-se a abrir um exemplar do "Agora" e ver se ele efetivamente publicou a "informação". O humorista não foi procurado, nem seu médico, nem ninguém de sua família para atestar a verdade. Isso não bastaria para justificar a publicação, pois aí entram considerações de caráter ético e de respeito humano, que podem levar um veículo a decidir não publicar. Uma hipótese a pesar, por exemplo, seria a de que o humorista poderia ter até mais dificuldade para conseguir apresentações, contratos e mesmo fazer frente a um eventual tratamento com a divulgação dessa notícia.
Muitas pessoas não gostam de ver divulgadas notícias assim a seu respeito. Suposições e preconceitos prejudicam uma carreira. Mesmo sendo uma pessoa pública, Pedro de Lara tem direito à privacidade. Outras pessoas ligadas ao entretenimento enfrentaram a benevolência da mídia e tiveram a divulgação de sua doença limitada ou evitada. Na França, os veículos não publicaram notícias sobre o câncer do então presidente François Miterrand. E isso durou anos até a véspera de sua morte.
É um assunto polêmico e que deve ser olhado caso a caso. Sempre que possível, e na medida do real interesse público, deve-se respeitar a vontade da pessoa envolvida.
O iG dá espaço aos internautas e isso é ótimo. O jornalismo dos leitores precisa ser disciplinado. É natural que busque audiência, mas também deve ser guiado pelo princípio de gerar o menor dano possível. Pois audiência, como todos sabem, nem sempre é sinônimo de qualidade. É o que demonstra a notícia campeã de cliques do Minha Notícia (quase 145 mil visualizações), publicada em janeiro: "Estudo revela que pêlos pubianos determinam a sexualidade feminina".
enviada por Mario Vitor Santos
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