"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
19/09/2007 18:22
Barriga de aluguel, jornalismo de canal
Não é a primeira vez que este ombudsman chama a atenção para a importância do noticiário de Ciência e Saúde. O tema já foi comentado na nota "Internet é ciência" (clique aqui). As notícias dessas áreas realizam um sonho do jornalismo: conhecer e dominar o corpo, o nosso e o dos outros, por dentro, ou seja, conhecê-lo de fato, dominar a sua realidade.
No caso, o iG destacou (e não foi o único) nesta quarta-feira uma notícia acompanhada de foto de grande apelo, em que imperava uma imensa barriga de mulher grávida, ornada pelo seguinte título: "Avó 'barriga de aluguel'" - Mulher dará à luz próprios netos. O texto aqui analisado é o que foi publicado às 15h18, neste link. Pouco mais de duas horas depois, às 17h27, o iG publicou uma nova reportagem, desta vez, completa. Porém, o comentário permanece.

A enorme barriga e sorriso da pernambucana Rosinete Palmeira Serrão, de 51 anos, chamam o leitor para a notícia. No texto, porém, mais uma vez, o leitor encontra uma dieta magra de notícias. Confira a íntegra:
"Avó barriga de aluguel dará à luz netos"
"RECIFE - A auxiliar de enfermagem Rosinete Palmeira Serrão, de 51 anos, que é barriga de aluguel de seus netos, um casal de gêmeos, em Recife, Pernambuco. Rosinete vai dar à luz bebês da filha, a dona-de-casa Claudia Michele, de 26 anos, que tem um problema no útero. O óvulo de Claudia Michele foi fecundado com o espermatozóide do marido e colocado dentro do útero de Rosinete."
O texto poderia ilustrar uma possível galeria de curiosidades. Foi editado, porém, no canal "Ciência e Saúde", o que exige um pouco mais de informação. Chamar as seções de um veículo jornalístico de canal implica já induz a uma associação com a nomenclatura da TV. O que traz vantagens e desvantagens.
São tantas as questões pessoais e científicas em jogo que é difícil dar conta de todas. A história pessoal, as sensações das pessoas que vivem essa situação são um convite ao trabalho dos repórteres. A obrigação do iG seria buscar essas informações para satisfazer a curiosidade que a notícia criou. Ou exigir que seus parceiros jornalísticos saciassem o interesse dos leitores.
A divulgação do assunto e da foto é uma iniciativa elogiável, embora, seja forçoso notar nela também uma certa tendência para o inusitado, para aquilo que está fora da ordem, à aberração. Uma antiga tendência da medicina é sua atração pelos corpos deformados, em esforço extremo, no limite da resistência.
No caso, esse limite é testado para uma tarefa do bem, a maternidade, com todo o imaginário de santidade ritual que a cerca. O pequeno texto colocado junto à foto é na verdade a legenda da imagem. Barriga gorda, texto curto e magro. Uma grande imagem, uma bela barriga, só isso aparece nesse jornalismo cada vez mais instantâneo, descartável, televisivo, que vai ao ar num canal.
enviada por Mario Vitor Santos
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