"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte

28/10/2007 14:13

Jornalismo contaminado

Desde segunda-feira, em Minas Gerais, na região de Uberaba, a Polícia Federal (PF), em mais uma ação escandalosa, acusou, fechou fábricas que funcionam há décadas e submeteu dezenas de pessoas às algemas e à prisão.

A PF acusa os detidos de fazer parte de uma "quadrilha" que adicionava soro, água oxigenada e até soda cáustica ao leite longa vida. Os meios de comunicação, em geral, aceitaram os termos usados pelos policiais e os transmitiram docilmente à população.
Segundo a acusação da PF, a "quadrilha" (polícia e imprensa usam cada vez menos a palavra "suposto") adicionava essas substâncias ao leite com a intenção de aumentar o tempo de conservação e o volume do leite, mesmo que para isso pusesse em risco a saúde dos consumidores. Diz a Polícia Federal que o esquema foi descoberto após três meses de investigações.

Impulsionada pelo Ministério Público e com autorização judicial, a operação contou com a colaboração voluntária dos meios de comunicação, inclusive do iG. O espetáculo criado para combater a chamada “fraude do leite”, foi chamado alegremente de "Operação Ouro Branco" pela PF. Suas conseqüências, porém, não lembram nenhum bombom: houve alarme no comércio em vários estados, interdição de lotes de leite e queda nas vendas. As empresas afetadas, inclusive a Parmalat e associações do setor, publicaram anúncios nas TVs, jornais e revistas.

Outros supostos exames químicos levaram a outras denúncias de fraudes, com acusações de possível falta de higiene e presença de coliformes fecais no leite de Goiás, e a descoberta de centenas de caixas de leite enterrado no Rio Grande do Sul. Técnicos de saúde cruzaram os céus para fazer investigações adicionais. Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura bateram cabeça sobre a responsabilidade da fiscalização Exames oficiais do leite supostamente adulterado, prometidos para sete dias, só ficarão prontos em quinze.

Quem são os acusados? Os supostos responsáveis são empresários, trabalhadores e químicos de cooperativas e empresas processadoras de leite existentes há décadas em Uberaba, do Vale do Rio Grande, além de Passos e outras localidades no sudoeste mineiro. São gente que tem família, pais e filhos e colegas de trabalho. Algumas vivem em pacatas regiões leiteiras, têm relações na empresa e nas comunidades, circulam pelos diversos empreendimentos do setor. A maioria leva uma vida normal e ordeira em suas cidades.

Muitos deles, é provável, jamais pensaram na adição de produtos estranhos ao leite, achavam que estavam faziam um produto de boa qualidade, como sempre se fez, ou não sabiam de nada. Se há algum culpado, é preciso apurar com calma.

Mas, até agora, os acusados (a maioria deles já em liberdade, provavelmente traumatizados pela experiência da prisão, um deles com suspeita de infarto) não foram ouvidos pelos meios de comunicação e nem por este iG. A eles foi imputado um crime tão grave que os levou à detenção, mas, para a maioria dos veículos de comunicação, eles, na verdade, nem nome têm.

Como se sabe, a melhor maneira de despersonalizar alguém é negar-lhe o nome, tirar-lhe a humanidade. Sem nome, veículos e jornalistas não se dão ao trabalho de ouvi-los, sua família ou conhecidos, descumprindo norma básica de todos os manuais de redação de todos os veículos da imprensa, que é a de dar voz a todos os lados envolvidos numa notícia. Eles não moram em São Paulo, ou Rio. A maioria não tem dinheiro, fama ou poder nem bons advogados. Eles são acusados e presos. Um agente lhes toma o depoimento e chega o dia em que são soltos. Depois ficam por aí.

As informações que o iG publicou são de que os órgãos oficiais atestaram a presença das substância citadas em alguns lotes do leite, em quantidade que não seria expressiva, embora suficiente para causar uma queimação de estômago.

Segundo informação (oculta no interior de texto de página interna da sexta passada na Folha de S.Paulo, mas não destacada em título nem interno nem na capa), "a subsecretaria de Vigilância em Saúde de Minas informou, em nota, que, embora os laudos indiquem irregularidades no leite, não é possível afirmar que tenha sido adicionada soda cáustica, uma vez que o método de análise não identifica a substância". Nenhuma reportagem, do iG pelo menos, mas possivelmente de toda a imprensa, informou como foi comprovada a presença das supostas substâncias.

Alguém precisa explicar se o fato de o leite estar fora dos padrões é resultado de negligência na limpeza, resíduo da limpeza de equipamentos (seria feita com soda cáustica) ou do ato intencional de contaminá-lo para obter lucros. Parece ter havido prova de que acidez ou alcalinidade estavam fora dos padrões. Existem outras substâncias ou processos do leite que podem causar essa mesma alcalinidade? A polícia dispõe de outras provas ou evidências de comportamento criminoso? Quais? Por que não divulga? Aliás, o que chamam genericamente de soda cáustica designa quais substâncias químicas em que concentrações?

O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde (Anvisa), Dirceu Raposo de Mello, afirmou, conforme reportagem do iG, que o sistema de vigilância sanitária não havia constatado nenhuma alteração no produto durante as inspeções rotineiras realizadas na ponta do consumo. E acrescentou: "Não existem dados que levem à proibição do consumo".
Também não houve até o momento nenhuma denúncia de pessoas contaminadas pelo leite. Ele reiterou que, dependendo da concentração destas substâncias no produto, não há danos à saúde. O laudo da Anvisa sobre o leite supostamente contaminado, como o próprio iG informa, deve sair em uma semana. Enquanto isso, os meios de comunicação submetem-se ao tom que predomina nas televisões, e estas seguem a Polícia Federal na promoção de um massacre de pessoas e empresas que são inocentes, como diz a lei, até que sejam condenadas em última instância pela Justiça.

Vinte e sete pessoas foram presas sob acusação de integrar a chamada "quadrilha". Todos menos um, foram libertados. Apenas o diretor-presidente da Cooperativa de Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Copervale), responsável pela fabricação e distribuição do leite integral Centenário, Luiz Gualberto Ribeiro Ferreira, continua preso. Ninguém parece ter tentado ouvir seriamente as pessoas que foram soltas. Suas versões são dadas pela própria polícia ou advogados. Não se sabe da íntegra de seus depoimentos à polícia.

Negam (se é que é fácil negar algo na incomunicabilidade de uma sala de depoimentos, sob pressão de investigadores e sob o trauma do isolamento) ou confirmam? E o que dizem os especialistas no tema, os químicos, engenheiros, biólogos, economistas e tecnólogos de alimentos? As autoridades (Polícia Federal, Ministério Público, Anvisa, Serviço de Inspeção Federal) deveriam estar sob enorme pressão para sustentar prisões em tal número e com acusações tão mal-sustentadas. Os responsáveis pela fiscalização deveriam justificar por que leite assim (se são verdadeiras as denúncias) estava sendo vendido. As empresas compradoras também têm sistemas de controle da qualidade do leite que recebem. O que dizem esses testes?

Mas agora, justo quando os detidos saem das celas, o assunto desaparece das manchetes e até das capas. O jornalismo deveria ser exercido de maneira muito mais independente, distanciada das autoridades e criteriosa.

A única forma de fazer jornalismo sério é depender menos de fontes oficiais e ir a campo ouvir as fontes, falar com as pessoas. Isso demanda investir em contratar repórteres, editores e providenciar os recursos (telefone, viagens de carro e avião, computadores, telefones). Ou seja, fazer jornalismo sem equipe é sinônimo de fazer jornalismo chapa branca, dependente das autoridades. Agora, por exemplo, quando chega a hora de ouvir os seres humanos envolvidos no suposto envenenamento do leite, quando é o momento de cumprir as normas que obrigam a audição de todos os lados, não há meios. Os veículos parecem estar aguardando surgir nova informação oficial, novo anúncio da Polícia Federal, facilitado por alguma assessoria de imprensa.

Além de investimento, ajudaria a melhorar o jornalismo formar melhores profissionais em termos técnicos e principalmente humanos. As escolas de jornalismo (e as de direito também, por que não?), por exemplo, poderiam incluir uma atividade, uma "dinâmica", na formação de seus alunos com o seguinte exercício: eles passariam uma noite (só uma) numa cela, sujeitos às mesmas condições materiais dos presos. Pode ser num xadrez desativado, não é preciso nem ser constrangido a conviver com outros suspeitos. Bastariam a falta de espaço, o “banho”, a comida na “quentinha”, o vaso, a cama de concreto e a solidão.


O adjetivo "suposta" vai sendo abolido do jornalismo

enviada por Mario Vitor Santos






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