"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

08/11/2007 20:34

Lancelotti, a polícia e o jornalismo

O noticiário sobre o caso de suposta extorsão ao padre Julio Lancelotti caminha para um desfecho desconcertante. Em uma reviravolta, a polícia anunciou ontem que o padre foi vítima de extorsão. E quando alguma autoridade (inclusive a polícia) fala, os veículos tendem a aceitar imediatamente, como se fosse a verdade acabada. Foi assim quando o episódio começou. É assim quando caminha para seu desfecho inconclusivo. Este episódio é exemplar para mostrar a tendência subserviente do jornalismo às fontes oficiais.

No início, quando a própria polícia vazou a informação para os jornalistas, inúmeras versões vieram a público. Mencionou-se o desvio de dinheiro público arrecadado por uma ONG de que o padre faz parte, falou-se em pedofilia, relacionamento sexual inclusive na sacristia. Os valores que supostamente foram dados pelo padre aos pretensos criminosos variaram de R$ 30 mil a R$ 600 mil, sendo que o próprio advogado de Lancelotti elevou a quantia a respeito da qual se falava no início. Houve depoimentos mantidos em segredo pela polícia e pela própria mídia, que chegou a veicular testemunhos em que a imagem de uma acusadora era mostrada, mas seu rosto permanecia na penumbra, anônima. Houve escândalo nacional, especialmente em São Paulo, onde o padre é uma figura de grande projeção e influência, gozando de imagem polêmica, mas positiva como um defensor dos que não têm nada. Algumas acusações levavam a outros supostos crimes sobre os quais existia grande curiosidade. Agora, por razões escassamente fundamentadas, a polícia “conclui” (verbo polêmico, que indica também “encerra”) que houve extorsão e só.

As únicas duas notícias publicadas hoje pelo iG a respeito são textos produzidos pela Agência Estado, com base em apenas uma fonte, a polícia. O mesmo texto da agência Estado é também o único veiculado pelos portais G1 e Uol (este também veicula outra notícia semelhante produzida pelo jornal “Folha de S.Paulo” e reescrita pelo portal Terra). A conclusão é uma só: o jornalismo brasileiro na internet (e também fora dela) caminha para tornar-se uma atividade com fonte única (geralmente oficial) e com reproduções infindáveis dessa mesma versão, oriundas todas da mesma agência, às vezes com as mesmas palavras e até os mesmos títulos. Apurações independentes, conduzidas em competição por equipes próprias dos principais veículos que vão a campo, praticamente não existem, mesmo quando um fato ocorre na principal cidade do país e chama a atenção de todos.

O padre é inocentado, mas já está condenado, mesmo que nunca tenha sido jamais acusado formalmente de nada. Sua imagem ficará afetada. Sobre ele, falta ainda a conclusão do juiz que comanda a investigação. Sobre a atuação do jornalismo neste caso, seus problemas são técnicos, decorrentes dos poucos recursos materiais e humanos disponíveis e de uma atitude que vai ficando cada vez mais passiva e conformista. O jornalismo independente passa por sérias dificuldades, em quase todas as áreas. Mas, na cobertura policial, especialmente depois do assassinato de Tim Lopes, ele caminha para o fim.



enviada por Mario Vitor Santos






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