"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
14/11/2007 19:01
O "caos" e o papel dos editores
Greves estouram agora em vários países do mundo. As mais famosas são as do mundo desenvolvido e rico: pararam funcionários do serviço de transportes e os estudantes na França, os roteiristas em Hollywood, os contra-regras dos teatros da Broadway, os músicos do teatro Scala, de Milão. Até agora, prevalece a disposição de negociação ao menos retórica, dos grevistas e das autoridades. Contrastam com as greves que acontecem no Brasil no seguinte: a atitude eqüidistante, levemente simpática dos principais meios de comunicação em relação aos grevistas. Mesmo nos Estados Unidos, a mídia esforça-se para tratar a greve com neutralidade. Sindicatos têm poder lá, grevistas em geral têm boa situação, lêem jornais e revistas. O medo de eventuais campanhas de boicote acaba funcionando como elemento de dissuasão.
Lá os movimentos grevistas não são imediatamente vistos como ilegítimos por resultarem de manipulação. Nisso já há uma certa ofensa, só às vezes justificada, aos grevistas. Esses são encarados como cidadãos que exercem um direito previsto nas regras do jogo. Os veículos de comunicação dão espaço para reivindicações dos trabalhadores, cujas lideranças são ouvidas e têm seus argumentos registrados com intenção de igualdade em relação às outras partes (empregadores, governo). A greve, em princípio, não é criminalizada.
O contraste com a maneira como os meios de comunicação brasileiros tendem a encarar movimentos grevistas é evidente. Quando trata de luta entre classes, de divergências entre empreendedores (potenciais anunciantes) e trabalhadores, o jornalismo no Brasil cede facilmente, abandona a pluralidade. Quando os tribunais e a polícia são chamados a agir, portanto, não o fazem em terreno virgem. O trabalho de desgaste junto à opinião pública já foi previamente realizado pelos meios de comunicação. Essa atitude parcial é outra marca do atraso brasileiro. Ela tem a ver com a falta de independência do comando das redações no Brasil em relação aos interesses das empresas proprietárias dos veículos. Sim, porque os objetivos do jornalismo e a natureza dos negócios favorecem visões muitas vezes diversas. Aquilo que faz a independência de um veículo nem sempre coincide com seus interesses comerciais mais imediatos, se bem que é a separação entre Redação e os administradores do negócio o maior fator para a construção da imagem e do respeito de um veiculo junto ao público. A prova disso é o valor pago recentemente pelo Wall Street Journal. Independência editorial tem a ver com independência dos editores. É uma instituição que está na base do melhor jornalismo de diversos países, como os EUA e a França. Infelizmente, está extinta no jornalismo brasileiro, a um ponto de não deixar rastro. Como imaginar um diretor de Redação ou um editor-chefe brasileiro dizer não a um proprietário de veículo de comunicação sob o argumento da independência? Está extinta, mas tem uma importância cultural e política que falta ser mais bem estimada pela sociedade. A imunidade do editor deveria ser reconhecida e cultuada como a de outros operadores institucionais.
Hoje, por exemplo, o iG publica o mesmo título da BBC de Londres: Greve nos transportes públicos gera caos na França. Enquanto isso, na França, o direitista Le Figaro diz em manchete que não há ainda perspectiva de melhora e o centro-esquerdista Le Monde descreve a mesma situação em manchete: Na gare de Lyon em Paris, uma manhã muito calma. Até agora, sem caos.
enviada por Mario Vitor Santos
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