"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

26/11/2007 13:16

O iG e o linchamento do suíço (1)

Desde os dias 7 e 8 de novembro, o iG, o Último Segundo e o Conversa Afiada ignoram princípios básicos do jornalismo e da ética. O Conversa Afiada (no dia 7) comentou e o Último Segundo (no dia 8) noticiou a prisão de 20 cidadãos brasileiros e suíços, acusados de montar esquema para evasão de divisas. Dentre os presos está o suíço Luc Mark Depensaz, funcionário do banco suíço UBS. Na ocasião, o Último Segundo publicou que, ao ser preso, Depensaz fez a seguinte afirmação a agentes (não-identificados) da Polícia Federal:

"Eu não vou ficar preso. Quem tem dinheiro neste país não fica preso."

Se fosse verdadeira (não se sabe), difícil conceber afirmação tão agressiva, arrogante, auto-incriminadora e até racista como essa.

A origem da declaração é uma reportagem assinada pela Agência Estado de notícias. Mereceu destaque no jornal “O Estado de S.Paulo” e também em quase todos os maiores portais de notícias. Uma pesquisa no Google mostra que a frase atribuída ao suíço foi reproduzida mais de cem vezes, sem qualquer questionamento da veracidade, só na internet brasileira. A suposta declaração foi sempre reproduzida entre aspas, mesmo vindo por fonte não-identificada. Ou seja, o jornalista não presenciou a suposta afirmação, mas não informa que checou as palavras pronunciadas com diversas fontes. Informações em off exigem checagem muito rigorosa. Informações em off reproduzidas entre aspas (como se fossem literais, sem que se tenha certeza disso) deveriam ser evitadas inteiramente.

De acordo com a versão divulgada pela Polícia Federal, a suposta quadrilha, composta por funcionários dos bancos UBS, Credit Suisse, AIG Private Bank e Clariden, trabalharia através de uma pretensa doleira, Claudine Spiero, também presa. A tal suposta quadrilha é acusada de enviar fortunas para fora do Brasil de maneira ilegal, fraudando as leis tributárias e prejudicando o país.

A operação de prisão a cargo da Polícia Federal foi montada de acordo com o figurino usual: aparato policial, agentes uniformizados, armamento pesado, foto de pilhas de dinheiro sobre uma mesa em que aparece o brasão da PF, acusados algemados e operação batizada com nome sugestivo, para facilitar as referências na mídia “Kaspar 2”.

Como nas outras ocasiões, as versões da Polícia Federal são reproduzidas docilmente por jornalistas e seus veículos, inclusive este iG. Agentes, delegados, promotores recebem amplos espaços. Suspeitos viram criminosos. Suposições transformam-se em verdade. Jornalismo malfeito vira presa fácil para a manipulação da opinião pública. A versão dos acusados é escondida quando não simplesmente omitida.

Ninguém pergunta: e se a polícia estiver errada? E se for um mal-entendido? Ninguém fiscaliza a competência e os procedimentos das autoridades. É um processo sumário, num tribunal de exceção, sem direito a contraditório nem apelação. O réu não tem direitos. A condenação é imediata e eterna. O direito do cidadão, de ser inocente até prova em contrário ou, melhor, até condenação definitiva em última instância, após execer todos os seus direitos de defesa, é ignorado pelos meios de comunicação manipulados pela polícia.

O fundamento dessas operações da Polícia Federal são gravações feitas ao longo de meses com autorização judicial. As gravações em si já passíveis de questionamento como método de apuração. Quando abrangem um período tão dilatado são obviamente volumosas. Então geram “relatórios” supostamente precisos, que o juiz lê e, talvez com base neles, autoriza a prisão. A partir daí, o grupo acusado passa a ser tachado pela PF, pelo Ministério Público e por veículos da imprensa, de “esquema” e, comumente, de “quadrilha”. O sensacionalismo e a demagogia imperam, sem que ninguém se choque. Não é feita investigação independente, nem apuração dos fatos que dê espaço justo e proporcional, de verdade, a todos os lados (especialmente aos acusados, pois a versão oficial sempre ganha logo as manchetes).

Vamos agora então a um esboço de outro lado que ninguém publicou com o espaço necessário.

enviada por Mario Vitor Santos






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