"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
17/12/2007 19:28
Ombudsman on-line: uma necessidade da web 2.0
Leia abaixo texto publicado hoje no site Editor's Weblog, de Paris.
"A internet tem mudado totalmente o relacionamento entre jornalista e leitor. A interação de duas vias feita pelo leitor ganha terreno através de e-mails, comentários, SMS, chats on-line e blogs. Isto pode significar que os fornecedores de notícias cada vez mais precisam de ombudsmans. Entretanto, existem declaradamente menos de 40 ombudsmans nos Estados Unidos e poucos jornais estão dispostos a contratar um, em um momento de corte geral de gastos. Talvez eles devessem analisar os custos potenciais de não ter um ombudsman e então percebessem que a voz dos leitores não é (apenas) uma cerca de proteção contra leitores irritados. Ele ou ela é uma ponte no jornalismo da Web 2.0.
"Editors Weblog" entrevistou Mario Vitor Santos, que em junho entrou no iG (Internet Group, especializado em uma variedade de serviços on-line, incluindo um site de notícias) para tornar-se um ombudsman somente de internet, um dos primeiros do gênero. Com a ascensão das duas vias da comunicação online, bem como o aparecimento de novas questões éticas relativas a comentários, conteúdo gerado por usuários e "fast-news" no meio online, o ombudsman será, sem dúvida, um importante elemento para manter a oferta de notícias confiável e juridicamente segura.
Além de já ter trabalhado como jornalista, editor e chefe da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, ele também ocupou por duas vezes o cargo de ombudsman, em 1991-93 e 1997-99.
No passado, a "velha mídia era feita de coletores e divulgadores das informações", "nós, como jornalistas, escolhíamos a quem dar a palavra", disse Santos. Agora, "muitos podem falar para alguns", ou mesmo falar diretamente a muitos (ultrapassando os "poucos" jornalistas). "Nossa concepção sobre o nosso trabalho está sendo testada pelo público".
Isso é o que está realmente em jogo na escolha de um jornal de ter um ombudsman ou não: pode ser um sinal de que os editores abraçaram a nova forma de relacionamento web 2.0 com o público ou que tenham permanecido presos ao discurso de uma leitura de mão única. De certa forma, todo jornalista tem o potencial para ser um ombudsman atualmente.
Primeiro, alguns antecedentes sobre o status tradicionalmente precário dos ombudsmans:
A revista Gelf Magazine recentemente relatou sobre "o surpreendente fenômeno" dos ombudsmans. Foi somente na década de 1960 que surgiu nos Estados Unidos, quando a opinião pública se tornou mais cética em relação à imprensa. Mas, até hoje, relativamente poucos jornais norte-americanos já contrataram um - The New York Times só contratou um ombudsman na época do escândalo de plágio de Jayson Blair, ocorrido em 2003.
"Eles trabalham no que foi freqüentemente considerado um dos mais ingratos empregos dentro do jornalismo: ouvir reclamações de leitores zangados (e por vezes loucos de raiva) e serem ignorados por colegas zangados (e por vezes loucos de raiva) a quem eles ousaram criticar", escreveu Mark Jurkowitz, que foi ombudsman no jornal The Boston Globe, durante dois anos.
The Minneapolis Star Tribune - recentemente eliminou o cargo de ombudsman. "Em uma época de corte dos recursos", os editores escreveram um memorando interno "precisamos de mais ajuda com o jornalismo na redação".
"É paradoxal, porque, quanto mais eles querem ganhar dinheiro, mais eles precisam destas regras", disse Santos (sem se referir ao episódio do jornal americano, em particular). Parece que os editores do Minneapolis não mudaram velhos hábitos: primeiro, deve-se perceber que construir pontes e treinar pessoal para interagir com os leitores é agora parte da equação jornalística, que não se limita mais a controlar notícias.
Ainda por cima, o aumento de ombudsmans não acontece por causa de escândalos sobre o setor jornalístico, mas, em reação ao crescimento do poder da audiência. É uma consequência natural da web 2.0.
O papel do ombudsman está mais importante na nova mídia mundial? "Sim, está. Não tenho dúvidas disso", disse Santos.
Para quem está começando, "nomear um ombudsman significa que está preocupado com a qualidade e precisão de suas informações." Isto dá uma afirmação de credibilidade e seriedade aos leitores,geralmente mais céticos em relação às notícias online. "A nova mídia quer adotar algumas das normas da chamada velha mídia", porque muitas vezes eles não têm a credibilidade dos meios de comunicação tradicionais, e não desenvolveram um código de ética. Nesta situação, os sites jornalísticos têm uma vantagem, porque eles herdarão do jornalismo tradicional suporte e prudência. Isto também pode colocar jornais em desvantagem, porque eles são naturalmente mais resistentes à aceitação de riscos éticos e digitais.
Para todos os que atuam na internet, jornais inclusive, "nós ainda estamos tentando construir não só uma geradora de notícias, mas instituições com valores públicos formados em uma espécie de consenso informal", disse Santos. Todos os meios estão em processo de recriação de ética voltada para o jornalismo onine. Além da sua tradicional missão de enfrentar as queixas de leitores, que são geralmente semelhantes às de jornalismo impresso, o ombudsman deve verificar se a mídia onine irá eventualmente compreender os padrões éticos e ser entendida como tal pelo público.
Questões de difamação, comentários de usuários e direitos autorais são apenas algumas das preocupações mais presentes no mundo onine - e para as quais precisamos de um especialista para quem recorrer. No Reino Unido, embora ainda isso não tenha sido testado claramente, jornais poderiam ser potencialmente responsabilizados por comentários postados por usuários em seus sites. Em um caso, Santos teve que direcionar reclamações para rebaixar um fórum no qual integrantes de torcidas organizadas estavam marcando brigas de rua. Ele também precisa administrar regularmente leitores indignados com o blog político Conversa Afiada (Sharp Talk).
Santos não é simplesmente uma ligação entre leitores e a empresa, ele também é "visto como o último salvador para algumas situações extremas". E desde que ele assumiu este cargo no iG, os efeitos têm aparecido. Após vários pedidos, os usuários foram beneficiados, forçando o site a publicar boxes de correção - uma prática incomum nas notícias online. Agora, o site de notícias de iG tem até uma seção de 'Correções'. Por meio de Santos, os leitores também fizeram o iG publicar um determinado código de ética e regulamento, semelhante ao manual de redação utilizado na maioria dos jornais impressos. Se um número suficiente de leitores enviar cartas sobre um artigo, Santos também pode procurar o jornalista (que normalmente ainda estão relutantes em entrar na conversa ou responder às críticas) para que ele responda.
Em uma época em que quase todos os meios de comunicação tradicionais estão sendo transferidos para a internet e para novos conjuntos de regras, o ombudsman é uma boa maneira de preservar o nome e a credibilidade de um veículo - as maiores vantagens de um jornal como fontes de notícias.
"Nesta época pós-Jayson Blair, quando as empresas de notícias estão reconhecendo a necessidade de uma maior transparência, o número de ombudsmans está aumentando tanto em nível nacional quanto em nível mundial," escreveu Jurkowitz.
Mais jornais e empresas de notícias compreenderam a importância de ombudsmans nos últimos 15 anos, que "estão se tornando um elemento natural da paisagem" no Brasil, disse Santos.
O aumento do número de ombudsmans não deve ser encarado apenas como uma resposta às ameaças e acusações da audiência, mas sim como uma forma eficaz de dar conta do novo ambiente midiático: como todas os lados têm agora um canal para manifestar as suas preocupações, o ombudsman é a porta do jornal para o diálogo."
enviada por Mario Vitor Santos
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