"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
10/01/2008 19:03
A negociação
De todos os veículos de comunicação do Brasil, o iG foi o que deu de maneira cautelosa e distanciada, tímida até, o noticiário sobre suposto acordo, verbal, sem assinatura, para compra da Brasil Telecom pela Oi, do que resultaria uma megaempresa de telecomunicações. A notícia saiu em primeiro lugar ontem na coluna Radar, de Lauro Jardim, da Veja on-line.
Em seu noticiário veiculado no Último Segundo, o iG hoje limitou-se e relatar o que a imprensa publicou abundantemente. Não procurou avançar outras informações da negociação, não questionou versões incorretas de outros veículos, nem muito menos tomou posição. Além disso, registrou, corretamente, o que muitos já sabem: a Brasil Telecom é proprietária do iG, o que pode ser uma razão, não justificável, da cautela. A negociação nem mesmo chegou a ocupar a manchete da capa.
Para além de vínculos empresariais, uma certa contenção nesse noticiário é, porém, recomendável, à luz do histórico de balões de ensaio, jogos de cena e iniciativas que subitamente são anunciadas com estardalhaço pela mídia para logo serem abortadas ou simplesmente esquecidas. O iG faria bem em investir na cobertura, alocando repórteres para apurar com independência e noticiar o que descobrirem. A transparência de um veículo é testada justamente na cobertura dos meandros dos fatos que o envolvem e que afetam seus controladores.
A timidez inicial do noticiário hard news do iG foi compensada hoje pelo trabalho de Paulo Henrique Amorim em seu blog Conversa Afiada. Além de temperar a empolgação geral dos grandes jornais com pela proposta da Oi, o blog procura dar sentido ao conjunto, dá espaço para um outro lado (supostamente alguém dos fundos de pensão ou alguém não identificado ligado à própria Brasil Telecom) e ajuda a entender o jogo de forças por trás das versões que vêm a público.
Em nota intitulada Fundos terão participação relevante na BrOi, Paulo Henrique informa que a empresa resultante da compra não será estatal. Isso já em si é polêmico e provavelmente será tema de disputa no futuro. Diz ainda que o acordo de acionistas da suposta nova empresa está em negociação e que ele é um elemento central na negociação em curso: os fundos de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ), Caixa Econômica (Funcef) e Petrobras (Petros) manterão posição relevante nessa nova empresa.
Acrescenta ainda que segundo uma fonte do Conversa Afiada que participa diretamente das negociações, este acordo terá que ser muito cuidadoso, porque os três fundos consideram o setor de telefonia estratégico e não querem abandoná-lo, nem perder a ascendência que têm sobre decisões estratégicas, como, hoje, por exemplo, têm na Brasil Telecom.
Como pano de fundo, portanto, está a idéia de uma grande tele brasileira, capaz de competir no mercado nacional e, quem sabe até, no latino-americano, como gigantes como a Telefônica e os empreendimentos do milionário mexicano das telecomunicações Carlos Slim. Entre os controladores da Brasil Telecom, o Citigroup, em dificuldades por causa da crise no mercado de hipotecas nos EUA, tem interesse em desfazer-se de suas posições com urgência. Na Oi, é o grupo GP que deseja retirar-se. Concentram-se, portanto, em torno dessa negociação interesses complexos de estratégia econômica nacional e internacional, estatais e privados. Num episódio anterior, em agosto passado, o ministro das Comunicações Hélio Costa procurava articular alguns desses interesses em agosto passado quando anunciou um grupo de trabalho para discutir a fusão Oi/Brasil Telecom. Não prosperou. O tema reaparece com força na forma do acerto de compra da Brasil Telecom. Só que agora quem aparece à frente do controle da grande tele brasileira são outras forças. Vale a pena ir atrás de quem divulgou essa atual versão da negociação como forma de entender melhor a queda de braço de bastidores, da qual a mídia às vezes é apenas instrumento.
Agora, a quase totalidade dos veículos que antes rejeitavam a finada iniciativa de Costa, considerada estatizante e atrasada, aposta na compra do controle da Brasil Telecom pela Oi. É provável que o negócio não avance rápido. Pode demorar mais de ano. A Brasil Telecom já desmentiu qualquer acordo, mas a Oi diz que as negociações se intensificaram. O negócio, antes de vingar, certamente terá que vencer grandes complexidades e talvez já tenha perdido aquele sentido de certeza e urgência. Agora, a oficialização ficou para uma semana ou dez dias.
O noticiário, especialmente dos grandes jornais, traz as marcas de certa ingenuidade ideológica e técnica. Crê-se numa grande tele privada, mas sustentada por capital estatal ou para-estatal, na qual os fundos terão necessariamente participação relevante, com ascendência sobre decisões estratégicas. Os compradores terão que contar com aportes volumosos de empréstimos do BNDES, um banco estatal, os quais a Oi usaria para honrar a oferta de US$ 4,8 bi que, segundo as notícias, estaria fazendo para comprar a Brasil Telecom. O iG não fala de compra, mas usa um outro termo: uma consolidação.
Consolidação não é venda nem compra. Nesse ambiente, em que o apuração das notícias é tecnicamente fraca e as reportagens estão contagiadas por preferências ideológicas, arranjos de ocasião, o melhor é apegar-se aos princípios do jornalismo, conter a ansiedade e estar atento ao que fala quem vai contra a corrente como é o caso, de Paulo Henrique Amorim, neste iG.
enviada por Mario Vitor Santos
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