"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

12/01/2008 20:53

Desastre do metrô no iG

No primeiro ano do desabamento da estação Pinheiros do Metrô de São Paulo que matou sete pessoas e desabrigou mais de duzentas, o iG publica hoje reportagem da jornalista Ana Freitas. É o complemento do trabalho da Redação do Último Segundo (área jornalística do iG) desenvolvido nos últimos dias.

A respeito dessas reportagens, seguem algumas observações:

1) Em geral, o trabalho do iG nessa área, com exceção do que é feito pelo site Conversa Afiada, tem sido pouco crítico, depende excessivamente de fontes oficiais, especialmente do Metrô e das empreiteiras. Na reportagem de hoje faltam cobranças claras em relação às responsabilidades cíveis, criminais e econômicas dos envolvidos e também quanto ao comportamento do governo de São Paulo na condução desse assunto. O material não é claro em relação àquilo que os responsáveis fizeram e deixaram de fazer.

2) Falta dar voz de fato às famílias das vítimas, que parecem (digo parecem porque as reportagens apenas insinuam) insatisfeitas quanto ao tratamento que receberam e também quanto às indenizações que lhes foram pagas, quando foram.

3) Também as responsabilidades do consórcio de empreiteiras não são devidamente cobradas. O noticiário depende e confia muito nas lentas perícias oficiais, enquanto o tema vai caindo no esquecimento.

4) Há indícios de que as vítimas não foram devidamente tratadas por governo e empreiteiras nesse episódio, mas o iG não aprofunda essas investigações junto aos prejudicados.

5) Faltou fazer um mergulho nas vidas das vítimas, dar mais espaço para que falassem com tempo sobre a sua situação e que expressassem seus sentimentos em relação ao governo e às empreiteiras. Estão sendo bem tratados? Recebem pressões? Quanto receberam de indenização? É justa a quantia acertada? Ou as vítimas foram constrangidas a fazer acordos desvantajosos, com medo da demora de um processo, que, como iG corretamente informa em apenas um caso, poderia demorar até dez anos? Quem fez acordo conseguiu reconstruir suas vidas? E quem não fez?

6) Há, na cobertura do iG, um tom geral de que o problema está sendo encaminhado em clima de conciliação entre vítimas, governo e empreiteiras. Isso é verdade?

7) Nas reportagens, prevalece uma atitude de fundo favorável ao Metrô e às empreiteiras, em que são celebrados acordos sob a bênção dos órgãos judiciais. Segundo esse noticiário, o problema maior, o das vítimas, está quase todo resolvido pelos acordos. Será? Com base em que essa avaliação é transmitida?

8) Era preciso verificar a situação de cada vítima, ao menos as principais. Mas poucos personagens são ouvidos e apenas ligeiramente.

9) Em lugar disso, o Metrô recebe amplo espaço. Estatísticas são divulgadas para apoiar as versões oficiais. Confira, por exemplo, trecho de reportagem da Redação do iG publicada na quinta-feira, 10 de janeiro, com o título "Moradores afetados por cratera do Metrô negociam desapropriação de casas". A reportagem ouve a Prefeitura, Metrô, Defensoria Pública, Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, mas não registra a versão dos moradores citados no título. Confira um trecho:

"A Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, a Prefeitura de São Paulo, Metrô e a Defensoria Pública apresentaram acordo aos moradores da rua Gilberto Sabino, 170 (prédio), 182, 184 e 192 e da rua Capri, 204. As casas devem ser desapropriadas. A Prefeitura apresentou os laudos para a desapropriação dos imóveis. Durante a reunião, representantes do Consórcio garantiram que estão dispostos a analisar o quanto antes os pedidos de indenização por danos morais e matérias [nota do ombudsman: materiais] destes moradores. Os moradores tiveram conhecimento na própria sexta-feira dos valores de desapropriação propostos pela Prefeitura."

"Histórico - O acidente na Linha 4 do Metrô ocorreu no dia 12 de janeiro. Segundo o Metrô, dos moradores da região do entorno da Estação Pinheiros, 82,5% foram indenizados e retomaram sua rotina. Também foram celebrados acordos em todos os setes casos de vítimas fatais."

"Ainda de acordo com o Metrô, das 212 pessoas instaladas em hotéis da região, apenas 38 permanecem nesta situação e aguardam a desinterdição dos imóveis ou fechamento de acordos para que possam retornar às suas casas."

"Até o dia 6 de julho foram fechados 51 acordos de indenização com intermediação da Defensoria Pública - 32 com inquilinos, 18 com proprietários e um com familiares de vítima fatal. Ao todo, foram beneficiadas 128 pessoas (110 adultos e 18 crianças). A Defensoria Pública cuida agora de apenas 12 casos (incluindo alguns moradores das ruas Gilberto Sabino e Capri citados acima)."

10) A julgar por esse trecho e a frieza dos números, parece, portanto, que vai indo tudo muito bem. Note que não são divulgados os valores envolvidos nos supostos acordos. O iG divulga apenas as estatísticas de órgãos oficiais e empresas, sem ouvir o lado das vítimas.

11) Em lugar disso, o foco vai para a questão do novo cronograma de inauguração das estações e funcionamento da linha 4 (amarela), altamente influenciado, e talvez manipulado, pelos interesses eleiorais da campanha presidencial e de governador.

12) O cronograma merece grande atenção na reportagem publicada neste sábado. As providências de engenharia, os anúncios de acordo e as versões já parecem obedecer às prioridades de caráter eleitoral, o que o iG não trata com o devido destaque crítico.

13) O único relato mais claro de que moradores estão fazendo acordos desvantajosos aparece numa reportagem com o título "'Fui obrigado a entrar em acordo com eles', diz vítima do acidente". Esta reportagem não é do iG, mas da Agência Brasil (órgão estatal ligado à Radiobras e, portanto ao governo federal, que também tem interesses políticos em torno do assunto).

14) A reportagem do iG registra a declaração de Antonio Manuel Teixeira de que foi constrangido a aceitar uma proposta, mas não dá crédito no texto à Agência Brasil, embora faça remissão para reportagem oriunda da agência.

15) Deveria ser obrigatório questionar informações vindas, como a seguinte, de assessorias de imprensa, presente na mesma reportagem principal do dia do primeiro ano do desabamento. Preste atenção:

"Segundo a assessoria do consórcio, os valores das indenizações foram propostos pelos próprios moradores e negociados abertamente entre as partes."

A informação vai para o ar assim, sem que os moradores sejam ouvidos e seja checada essa versão no mínimo duvidosa das empreiteiras. o iG nem divulga se tentou ou não ouvir os moradores para confirmar.

16) A reportagem do iG não esclarece se tentou entrevistar o governador José Serra, o secretário dos Transportes ou o presidente do Metrô.

17) É obrigatório ouvir fartamente um número significativo das vítimas para chegar a uma conclusão sobre a correção do comportamento de governo e empreiteiras. É errado confiar nas assessorias de imprensa, em declarações e estatísticas oficiais não comprovadas com os interessados.

18) O saldo do trabalho mostra um esforço prejudica pela excessiva dependência de fontes oficiais e assessorias de imprensa. Aquilo que deveria ser um momento de investigação sobre eventual falta de interesse e incompetência por parte do consórcio e das autoridades, transforma-se em relatos que são críticos apenas pontualmente, mas no geral dão uma impressão de que o grosso das providências caminha na direção correta, com problemas isolados aqui e ali. Quando falta reportagem viva, com os afetados, sofre o jornalismo e o resultado é excessivamente reverente e quem sabe, contrário às intenções originais do veículo.

19) As reportagens do Último Segundo sobre este assunto deveriam remeter aos inúmeros comentários críticos de Paulo Henrique Amorim no seu site Conversa Afiada. Amorim tem exercido vigilância tanto em relação às atitudes do governo estadual e das empreiteiras, como em relação ao comportamento condescendente de muitos grandes veículos de comunicação neste episódio desagradável para o governo Serra. Fazer remissões para notas do Conversa Afiada dará iG e ao Último Segundo um diferencial crítico, num ambiente em que grandes veículos usam critérios diversos para tratar das falhas quando estas envolvem tucanos.e petistas. Os primeiros recebem tratamento tolerante da mídia, que tem sempre munição pesada para usar quando os problemas podem desgastar Lula, seu governo e o PT.

enviada por Mario Vitor Santos






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