"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

17/01/2008 18:24

Falso moralista

Duas fotos envolvendo a exposição, supostamente obscena, de corpos de mulher, mostram os critérios no mínimo duvidosos que orientam a edição da capa do iG. As notícias são as imagens de uma cena de nudez durante um baile funk em Vitória e a manchete sobre um suposto gesto obsceno de participante do Big Brother. Ambas parecem criticar ou mostrar surpresa diante comportamentos tidos como incorretos. Na verdade, a crítica é falsa. Trata-se de um pretexto, pois o iG na verdade usa os temas para chamar atenção e causar sensação.

Do ponto de vista da técnica jornalística, as notícias são decepcionantes. Ambas escondem mais do que revelam. O iG desperta curiosidade, mas logo decepciona os curiosos. Sobre a notícia do Big Brother, faltam as informações mais básicas. Não há reportagem detalhando nem mesmo o que de fato ocorreu, não se explica o contexto, não há reprodução do diálogo. Apenas uma seqüência de fotos mostrando dois big brothers abraçados na cama. Uma cena de voyeurismo confusa que não explicita o tal gesto obsceno que motiva a foto na capa do iG. Também quanto às imagens da performance de nudez no palco do baile funk de Vitória carece do jornalismo mais elementar. O iG reproduz a cobertura de seu parceiro BandNews, o que tem um certo interesse, apesar da distância em que foram feitas as imagens captadas por celular. Mas as imagens e a cobertura da BandNews deveriam ser usadas apenas como um ponto de partida para um trabalho jornalístico mais completo e profundo.

Qual seria a razão de divulgar essas duas imagens (a do BBB e a da jovem pelada em Vitória), sem apuração, contexto e sem que tenha havido uma apuração independente da veracidade por parte do iG? Mais parece então que o objetivo é a atração de uma audiência passageira. É verdade, internet pode ser assim o despertar contínuo de reflexos instantâneos na mente do espectador. Mas pode ser diferente disso. Pode apoiar-se em juízo de valor mais defensáveis. De qualquer forma, são essas decisões que, para o bem e para o mal, constroem a identidade do portal. Neste caso, como em tantos outros, há uma certa afronta ao gosto e às inclinações de um público mais sofisticado. Além de errada do ponto de vista ético. Essa estratégia pode ser furada do ponto de vista mercadológico e publicitário. Os veículos que internacionalmente têm maior apelo como produto estão associados a uma imagem de contenção e qualidade editorial.

O problema não é apenas colocar ou deixar de colocar nudez na capa. É, sim, não fazer jornalismo até quando a nudez é um assunto. Na reportagem sobre a nudez no baile funk, o iG não se dá ao trabalho de realizar qualquer investigação com os envolvidos. Deveria, ao menos, confirmar a idade da jovem. Nesse caso, mais uma vez, o Manual do Último Segundo é ignorado.

"Nenhuma notícia produzida pela redação do Último Segundo deve ser publicada se houver alguma dúvida sobre a sua veracidade, ainda que o jornalista acredite que a informação seja 99% certa. (...) No caso de notícias de outras fontes, elas não devem ser destacadas se houver alguma dúvida sobre sua veracidade."





As imagens que o iG destaca hoje

enviada por Mario Vitor Santos






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