"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
25/01/2008 06:20
Falta cor no conteúdo do iG
O iG publicou recentemente material de sua parceira BBC Brasil com críticas do correspondente Gary Duffi (leia aqui) à falta de diversidade racial nos desfiles da São Paulo Fashion Week. Perfeito, nada a opor. A mesma crítica foi feita por outros veículos de comunicação, inclusive o jornal Folha de S.Paulo, que chegou a publicar um placar mostrando a desproporção entre o número de modelos de cor branca escalados para estrelar os desfiles e a escassez de gente de cor negra. Dos 1.128 modelos da SPFW, só 28 eram negros (2,5%), segundo a Folha.
A vigilância dos jornalistas e dos órgãos de comunicação em relação a esse assunto, porém, padece de falta de coerência. O iG, por exemplo, como chama a atenção a sempre atenta leitora Elenice Oliveira, quase nunca se lembra de destacar em suas reportagens modelos negras, ou ilustrar seus conteúdos de entretenimento, namoro, beleza e consumo com homens de cor negra.
"No caso das mulheres bonitas sessentonas e setentonas caracterizaram mulheres bonitas somente as mulheres brancas, num país com 47% de negros. Lembro que publicaram fotos de Hebe Camargo, Angela Vieira, Vera Fisher e outras. Cadê fotos de Lázaro Ramos, Antonio Pompeu, Chica Xavier, Adriana Lessa, Adriana Alves, Mauricio Gonçalves, Maria Ceiça, Izabel Fillardis, Ruth de Souza, Zózimo Bulbul, Toni Tornado, Joel Zito, Zezé Motta e tantos outros atores e atrizes negros - será que o IG não respeita a diversidade? Tem que entrar lá na sua lista de Faltas um número para - Falta Respeitar a diversidade. Falta olhar o outro e admirar a diferença dele. Não podemos alimentar preconceito, senão seremos responsabilizados pela violência que todos nós sentimos"
Elenice Oliveira
O iG até hoje não elaborou uma política clara que regule seus procedimentos em relação à produção de conteúdos que reconheçam explicitamente a igualdade entre as pessoas independentemente da cor de sua pele. No Brasil, até o poder público (e umas raras empresas) adota padrões mais avançados do que a prática discriminatória que predomina nos veículos de comunicação, inclusive na publicidade e no jornalismo. Ao não estabelecer princípios explicitamente anti-racistas, nem tomar medidas práticas nesse terreno, o iG reproduz comodamente um padrão que no fundo é discriminatório. O Manual do Último Segundo, que deveria orientar os procedimentos do iG em temas relativos à discriminação é na prática omisso. Estabelece apenas que:
"O Último Segundo se reserva o direito legítimo de retirar das listas de publicação informações nas seguintes situações:
- Informação ofensiva, racista ou preconceituosa;"
"Título Os enunciados dos títulos devem ser diretos, podem ser bem humorados (nunca expressar preconceito) e o vocabulário não deve ser rebuscado"
Ou seja, para o iG a discriminação não é importante o suficiente para provocar uma atitude clara. O resultado da omissão é que padrão discriminatório herdado da mídia tradicional é reproduzido na nova ordem virtual. Além de vigiar a SPFW, o iG e outros veículos deveriam mostrar o seu próprio placar da discriminação.
Portal de Moda do iG, em que todas as imagens destacadas são de brancos
E o site oficial da SPFW, onde os únicos negros na capa são o ministro Gilberto Gil e a cantora Tina Turner
enviada por Mario Vitor Santos
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