"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
31/01/2008 18:22
Vacina e pânico
Caso se confirme a suspeita de que a auxiliar de enfermagem Marizete Borges de Abreu morreu em conseqüência de reações adversas à vacina contra a febre amarela, os meios de comunicação, inclusive este iG, deveriam vir a público assumir a responsabilidade por ajudar a criar um clima de alarme a respeito de uma suposta epidemia da doença, até agora não confirmada. A auxiliar de enfermagem tomou a vacina sem necessidade, pois não apresentava sintomas nem havia circulado por nenhuma área de proliferação da doença.
A única modalidade de febre amarela ainda existente no Brasil é a forma silvestre, ou seja, a que é contraída em regiões de mata ou em suas proximidades. Febre amarela em ambiente urbano não acontece no Brasil desde 1942. Os casos que têm surgido afetam exclusivamente pessoas que estiveram em áreas de risco (localizadas principalmente em Mato Grosso e Goiás). Os meios de comunicação falharam gravemente ao não esclarecer esse fato. Não informaram que o risco era nulo para quem não tivesse passado pelas áreas onde ainda existe a modalidade silvestre da doença.
Por falta de conhecimento, despreparo técnico, ânsia sensacionalista e leviandade, a mídia como um todo omitiu essa informação do público, contribuindo para criar um problema de saúde pública. Houve histeria social, corrida aos postos de vacinação e o esgotamento dos estoques da vacina em várias cidades. Pessoas foram presas sob acusação de vender a vacina indevidamente. O assunto já foi abordado esta semana pelo ombudsman da Folha, como citou o site Conversa Afiada, ao também criticar o alarme provocado pela mídia.
O governo errou pela falta de reação a tempo de controlar a situação. A situação chegou ao ponto de o ministro da Saúde José Temporão ter que fazer pronunciamento em rede de rádio e TV para tentar controlar o pânico. Há até agora outras três pessoas com reações graves (o que pode incluir inflamação do cérebro e comprometimento progressivo de fígados e rins) em decorrência da vacina. Até hoje, são 43 os casos de reações adversas à vacina, contra 20 casos confirmados da doença (em sua forma silvestre), causando 10 mortes (o que não está fora da média anual de óbitos nessa época como conseqüência, sempre, da febre amarela de origem silvestre).
O assunto vai saindo das manchetes e das primeiras páginas. A chamada cobertura de saúde no jornalismo brasileiro falha no momento em que é mais necessária (a área de saúde do iG hoje, por exemplo, nem menciona a febre amarela em sua capa, cuja manchete é "Rir é o melhor remédio: playground para idosos é inaugurado na Grã-Bretanha". Os veículos fingem que nada aconteceu e que a corrida aos postos foi espontânea e natural, como se não fosse conseqüência de um ambiente criado por incompetência informativa e sofreguidão. Falta auto-avaliação e transparência em relação aos erros do noticiário, cujas conseqüências são potencialmente letais. É princípio do bom jornalismo não colocar jamais em risco a segurança ou a saúde das pessoas. O princípio foi desconhecido e ninguém vem a público para debater eventuais erros. Essa seria a vacina que veículos e seus dirigentes deveriam, pedagogicamente, tomar.
enviada por Mario Vitor Santos
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