"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

15/02/2008 13:23

Congresso em Foco: notícia amparada nos fatos

Recebi [e agradeço] a manifestação abaixo do jornalista Sylvio Costa, em que apresenta os argumentos em defesa da conduta do Congresso em Foco no caso da acusação de trabalho escravo e outras supostas ilegalidades envolvendo a Fazenda Campo Aberto de propriedade da Ayrton Senna Empreendimentos.

"Caro Mário Vitor:
Dizer que o Congresso em Foco ouviu a empresa acusada “de maneira apenas formal” é absolutamente improcedente. Não é essa a nossa prática e não foi isso que transformou a aventura algo quixotesca de um grupo de jornalistas brasilienses naquele que talvez seja hoje o site político mais acessado do país. O repórter Lúcio Lambranho, durante aproximadamente dez dias, procurou à exaustão os advogados que funcionam no processo em andamento na Vara de Trabalho do município de Barreiras (BA). Tais advogados jamais deram retorno. Como é da prática do nosso site, o repórter não se satisfez até ouvir dois sócios da empresa rural em questão. Se um deles fez declarações infelizes, não nos caberia renunciar ao papel de bem informar, omitindo-as.

Também não aceitamos a tese de que houve a deliberada intenção de dar à parte acusada destaque “desproporcional à gravidade das acusações” de que ela foi vítima. Ao contrário. Foi dada a empresa a oportunidade de publicação na íntegra das alegações da defesa no processo resultante de denúncia do Ministério Público do Trabalho (MPT). A idéia era publicar tanto a denúncia quanto a defesa da fazenda. O site aguardou por mais de uma semana o envio desse material, jamais encaminhado.

Certamente, a família Senna e seus sócios subestimaram o prestígio do nosso site e a audiência e repercussão hoje proporcionadas pela mídia internet. Somente depois que a notícia – obviamente, bem fundamentada e amparada em fatos constatados pelas autoridades competentes para cuidar do assunto – ganhou pernas, estampada por veículos brasileiros e estrangeiros, uma advogada da família (que, por sinal, não aparece no processo) nos mandou um texto contestando a denúncia do Ministério Público do Trabalho. Imediatamente, colocamos a íntegra do texto no ar.

A sugestão de visita à fazenda, após a denúncia e a abertura do processo, ignora um fato decisivo: quando tomamos conhecimento do fato, a empresa já havia sido denunciada e respondia processo na Justiça. Ou seja, não seria mais possível encontrar o cenário que levou o Ministério do Trabalho a lavrar 29 autos de infração. Portanto, a visita in loco seria incapaz de determinar a veracidade do trabalho das autoridades encarregadas por lei de cuidar da questão. Afinal, a empresa poderia perfeitamente preparar uma “nova cena” para a reportagem, na qual seriam reparadas as irregularidades constatadas pelo Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo. É, aliás, o que costuma acontecer nessa área. Por isso mesmo, o Grupo Móvel age sempre em inspeções de surpresa.

Quanto a se basear em relatos oficiais, não tenho dúvida: documentos e ações oficiais desse gênero merecem, sim, divulgação jornalística. Aliás, no Congresso em Foco, temos aprendido a conhecer o poder subversivo das chamadas informações oficiais. Dados oficiais sobre doações eleitorais, processos movidos contra parlamentares, comparecimento a sessões do Congresso, pagamento de verbas indenizatórias, devidamente trabalhados e sempre se buscando ouvir as partes, formam um dos principais filões editoriais do nosso site. Um filão, diga-se, que só tem contribuído para aumentar o nosso reconhecimento. Somos o primeiro veículo de comunicação do país a publicar a relação completa dos parlamentares federais que respondem a acusações criminais. Mesmo assim, somos extremamente respeitados pelos próprios congressistas (tantas vezes, “vítimas” de nossa linha editorial independente). Sabe por quê? Porque eles sabem qual é a nossa prática: jamais negamos a ninguém o direito de defesa e investimos o melhor dos nossos parcos recursos na busca da reportagem cuidadosa e bem feita.

Enfim, Mário, considero digno de elogios o trabalho desenvolvido pelo Lúcio, sob o acompanhamento direto e a edição final do Edson Sardinha. Não estranho que a fazenda e a família, que primeiro nos negaram a atenção exigida por tema tão grave, queiram agora rebater a denúncia, diante da sua repercussão. Mas, repare: o que eles rebatem não é exatamente a nossa reportagem, e sim a denúncia do MPT. É mais uma demonstração da correção com que agimos. Aliás, faça um exercício: pense em como seria fácil para nós simplesmente deixar de publicar a matéria. Já pensou o dano que estaríamos causando à coletividade com o nosso silêncio? Por sinal, se só pudéssemos publicar denúncias do tipo se estivéssemos acompanhando a fiscalização, talvez tivéssemos de parar de publicar matérias sobre trabalho escravo. Com todo respeito, soa-me absurda a idéia de dar à defesa tardia da família Senna o mesmo peso da reportagem original. Isso equivaleria a transformar o jornalismo em um tiro ao alvo sem fim. De novo, seria bem fácil. Como se disséssemos assim: “Eis, leitores, várias versões; escolha a sua”. Não é o que buscamos, queremos fazer jornalismo de qualidade e independente; natural que ele esbarre em interesses contrariados dos poderosos.
Um cordial abraço,"
Sylvio Costa

enviada por Mario Vitor Santos






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)