"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
11/02/2008 21:56
Elogio ao iG, mas e à CGU?
A grande estrela do noticiário nesses dias não é o uso de cartões corporativos. Gastos inadequados e curiosos têm recebido atenção exagerada dos meios de comunicação. Jornalistas tendem a preferir notícias negativas, mas dessa vez a novidade é positiva, como afirma o leitor Tiago, em mensagem ao ombudsman. Diz ele:
O iG vem fazendo um bom trabalho sobre o tema de cartões corporativos. Há, contudo, uma crítica a ser feita: menosprezar a fonte de seus dados. Deve-se levar em consideração que os dados do Portal da Transparência só estão acessíveis por ação exclusiva da Controladoria-Geral da União - CGU, que é órgão de Estado (e não de governo...). Não fosse o mérito da CGU, esses dados jamais estariam disponíveis à mídia e nunca seriam detectados os abusos cometidos por autoridades. Ocorre que raramente a CGU é citada nas reportagens do iG. Não há uma única palavra de elogio, de alento ao esforço do órgão. Trata-se da execrável técnica da mídia de 'cuspir no prato onde se serviu'."
A imprensa não tem tradição de apontar fatos positivos, especialmente quando dizem respeito ao governo Lula. Existem razões para que o governo seja criticado. Mas o advento do Portal da Transparência, como aponta o leitor, não é iniciativa apenas deste governo. É uma ação de Estado, que merece entrar para a história, pois tem o potencial de alterar de verdade as relações entre os cidadãos e o poder público.
Faz alguns anos, a Controladoria Geral da União mantém um site em que revela uma montanha de informações sobre os gastos do governo e convida os cidadãos a fiscalizar. Oferece um campo de denúncias para que o cidadão aponte irregularidades.
Em sua página está escrito:
O Portal da Transparência reúne informações sobre como o dinheiro público federal é aplicado. Estão disponíveis dados de todos os recursos federais transferidos da União para estados, municípios e Distrito Federal. Pode-se consultar, por exemplo, quanto foi repassado pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) do Ministério da Educação para qualquer município do País ou mesmo quem são os beneficiários do Bolsa Família, quanto receberam e em que meses.
No portal, estão disponíveis informações sobre os recursos públicos federais transferidos pelo Governo Federal a estados, municípios e Distrito Federal para a realização descentralizada das ações do governo e diretamente ao cidadão, bem como dados sobre os gastos realizados pelo próprio Governo Federal em compras ou contratação de obras e serviços, por exemplo.
Ao acessar informações como essas, o cidadão fica sabendo como o dinheiro público está sendo utilizado e passa a ser um fiscal da correta aplicação do mesmo. O cidadão pode acompanhar, sobretudo, de que forma os recursos públicos estão sendo usados no município onde mora, ampliando as condições de controle desse dinheiro, que, por sua vez, é gerado pelo pagamento de impostos.
O portal apresenta um tesouro para os jornalistas realizarem seu trabalho com apoio em dados oficiais. Vale uma visita, pois é uma alternativa ao infindável nhem-nhem-nhem declaratório do noticiário.
Qualquer página dá uma idéia da extensão estonteante, automática e fascinante das ações da máquina pública no país e da importância de políticas corretas para a resolução dos problemas sociais, especialmente os da ignorância e da miséria.
O portal é também uma ferramenta e um desafio para os jornalistas. Põe cidadãos comuns e jornalistas em pé de igualdade. Qualquer um pode ir lá e descobrir o furo. Não faz coletivas com especialistas nem traz a informação pronta. A informação são os números e os milhões de nomes de beneficiados com pagamentos oficiais. É preciso saber garimpar.
O portal serve muito para que repórteres independentes possam exercer seu trabalho investigativo com base em números oficiais, mas exige profissionais de boa técnica, com faro jornalístico e capacidade para pensar. Demanda também gente capaz de trabalhar com grandes quantidades de informação e com tempo para isso.
As escolas de jornalismo ainda não entregam ao mercado profissionais com essas características. Os veículos, por seu lado, também não investem na formação de jornalistas com conhecimentos suficientes de estatística, informática, economia. Os bons repórteres que surgem com essas capacidades são resultado de esforços individuais isolados, nem sempre valorizados.
O jornalismo investigativo apoiado em computadores ainda engatinha no Brasil. Isso quer dizer que mais uma vez o governo acaba ditando o ritmo para a mídia, que não tem meios para lidar com as mudanças trazidas nessa época de informação abundante.
O processo é contraditório. Enquanto montanhas de informação só chegam a público quando os poderosos do governo e fora dele as escancaram para algum jornalista (e estes conseguem descobrir algum suposto culpado), enxames de repórteres vagam à cata de celebridades irrelevantes. Sobra mão de obra numa área, falta na outra. Tudo de ponta-cabeça.
Agora há mais informação, isso é bom, mas algumas perguntas importantes continuam sem resposta. Quais as ameaças que existem sobre o Portal da Transparência, cujo trabalho incomoda governo e oposição? Quais os critérios que vão comandar as informações censuradas? Quem vai realizar esse debate e, principalmente, quem vai decidir?
No iG, o excesso de material tem deixado alguns internautas perdidos, como reclama o leitor Bruno. "O iG não confia em seus blogueiros? Uns 15 blogueiros do iG já comentam abertamente sobre os "100 milhões" do cartão corporativo do governo Serra e vocês não falaram nada até agora nas notícis principais do portal. Eu como leitor do blog fico um pouco confuso. Em quem confiar?", comenta ele.
Num mundo ideal, o foco da cobertura não deveria ser os cartões corporativos, cujos gastos são evidentemente secundários. É bem mais complicado de entender os problemas maiores, que afetam as políticas públicas e isso nem sempre gera manchetes.
Para fazer frente ao progresso, a mídia deveria evoluir na direção oposta: um jornalismo mais sobre os temas e menos em torno dos supostos crimes de fulanos e sicranos.
Os computadores e a internet, acusados de favorecer a alienação e a indiferença, desafiam o velho jornalismo e abrem a possibilidade da democracia ser mais eficiente e transparente. Agora existe a chance de realizar antigas aspirações investigativas do jornalismo. Mas será que alguém vai querer (poder) achar o que importa no oceano descortinado pela valiosa CGU? E será que alguém vai ouvir quando a verdade for dita?
enviada por Mario Vitor Santos
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