"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
15/02/2008 13:23
Escravos da verdade
Na terça-feira passada, o iG publicou reportagem (leia aqui) com chamada na capa acusando a fazenda Campo Aberto, de propriedade do pai de Ayrton Senna, Milton Guirado da Silva, de promover trabalho escravo. A reportagem, assinada por Lucio Lambranho, foi gerada pelo site Congresso em Foco, que é parceiro do iG. Foi reproduzida pelo jornal O Estado de S.Paulo, Associated Press, Terra (este sem citar os autores originais) e outros. As revistas preparam-se para tratar do tema no fim-de-semana.
No texto, o repórter, com base em laudos de fiscais do Ministério do Trabalho e em ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho, informa que a fazenda submetia seus trabalhadores a condições desumanas de trabalho, sob contratos ilegais, sem respeito aos direitos da legislação, sem meios de higiene e alimentação adequados, nem condições de transporte para que os trabalhadores pudessem gozar de folgas. Afirma ainda que os trabalhadores entravam em contato com agrotóxicos pulverizados por aviões enquanto trabalhavam. O tema é grave ainda mais porque envolve o nome dos Senna, conhecidos por arrebanhar apoios para causas sociais e bons exemplos de cidadania. Um prato cheio para o jornalismo, o que em geral significa também perigo.
A reportagem de Lambranho baseia-se em ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho contra a Fazenda Campo Aberto. Este processo surgiu de uma inspeção de fiscais do trabalho realizada na fazenda entre 28 de fevereiro e 9 de março do ano passado segundo a qual teriam sido encontrados 82 (oitenta e dois) trabalhadores em condições de trabalho extremamente degradantes tendo, na ocasião, sido lavrados 29 autos de infração.
O Congresso em Foco e Lambranho ouviram um representante da Campo Aberto, Ricardo Ferrigno, que declarou que as acusações não eram verdadeiras. Ou seja, o princípio do jornalismo de que o lado dos acusados tem sempre que ser ouvido é seguido, mas de maneira apenas formal, com destaque inteiramente desproporcional à gravidade das acusações.
Também à guisa de outro lado, o Congresso em Foco e o iG publicam um texto cujo título é mais incriminador do que pró-réu, sugerindo tolerância com irregularidades: Lugar 100% você nunca vai encontrar. Esse texto traz declarações lamentáveis de um dos sócios do empreendimento, Ubirajara Guimarães, o Bira, culpando os trabalhadores pela falta de asseio.
No mesmo dia da publicação da reportagem este ombudsman recebeu mensagem da advogada Samira de Vasconcellos Miguel, da Ayrton Senna Empreendimentos, com uma defesa mais ampla e fundamentada, em que as todas as acusações (de escravidão e outras práticas ilegais) são negadas.
O iG, Congresso em Foco e outros sites reproduziram o desmentido dos acusados na íntegra (leia aqui), mas não com o mesmo destaque nem com o nível de detalhes das reportagens iniciais, de cunho incriminatório.
O princípio básico do jornalismo segundo o qual o outro lado, ou seja, a versão dos acusados, deve ter destaque equivalente à gravidade da acusação quase nunca é cumprido. Com freqüência, os jornalistas apóiam-se em acusações feitas por terceiros, adotam um lado, comprometem-se com ele e vão até o fim.
A verdade, que é o valor mais importante do jornalismo, fica cada vez mais distante. Neste caso, o jornalista não visitou a fazenda, não falou com os trabalhadores envolvidos para reconstituir os fatos e constatar por si mesmo a veracidade das informações. Confiou nos depoimentos dos trabalhadores obtidos pelos fiscais do Ministério do Trabalho. Estes são instrumentos relevantes apenas como passos iniciais, mas não substituem a reportagem in loco, em que os fatos são colocados no contexto e em perspectiva. A obrigação agora é ir a fundo e levantar todas as pontas dessa história. Quando o jornalismo se limita a reproduzir as acusações das autoridades e os embates entre versões na Justiça, ele rebaixa o seu papel. Pode virar coadjuvante num espetáculo de equívocos, exageros, vinganças e escândalo.
enviada por Mario Vitor Santos
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