"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

03/02/2008 16:44

Segredos de camarote

O jornalista Alberto Dines escreveu recentemente que o jornalismo nos dias de hoje é cada vez mais negócio e cada vez menos serviço público. È um processo profundo e radical. Preocupa, pois não se trata de uma mudança qualquer. A lógica do negócio é muito diversa dos objetivos do jornalismo, se não oposta.

A internet contribui para agravar as ameaças aos valores clássicos do jornalismo, já tão enfraquecidos por uma espécie de fadiga e vazio que afeta tantas áreas, em especial as relacionadas aos assuntos públicos. A corrida por lucros e posições não vê limites nesse meio jovem que funde mídias e posições, que confunde emissores e receptores das mensagens, que confunde clientes e fornecedores.

Agora por exemplo, no Carnaval da Bahia, o iG conquistou ao Terra, com quem concorre por audiência e publicidade, o patrocínio exclusivo para empresas de internet do camarote de Daniela Mercury (juntando-se ao que já tinha para o outro grande camarote daquele evento, o 2222, do ministro-cantor Gilberto Gil).

Um patrocínio desses permite transmissão exclusiva de imagens e som a partir dos camarotes e do que acontece neles. As chamadas celebridades fazem aparições nesses locais, os patrocinadores cortejam clientes, convidam para assistir aos desfiles dali.
A exclusividade na transmissão ao vivo do Carnaval nunca impediu nos anos anteriores que o então patrocinador do camarote (o Terra) liberasse o acesso de todos os outros veículos, inclusive, no caso, o iG, para realizar a cobertura jornalística (sem transmissão ao vivo).

Este ombudsman foi procurado por um leitor, membro de empresa concorrente do iG na cobertura do Carnaval de Salvador e que pediu para não ser identificado. O leitor reclama de que o iG está mantendo neste ano o costume tolerante e ecumênico de liberar para todos os outros veículos o acesso ao camarote, com apenas uma importante exceção: o Terra. Estão, portanto, proibidos apenas os repórteres e fotógrafos do adversário mais próximo do iG na disputa por colocações na tabela de audiência da internet brasileira. O veto vale também para os parceiros do Terra. Todos os outros veículos concorrentes, inclusive Uol e G1, foram normalmente credenciados.

Questionado a respeito, o diretor de Conteúdo do iG, Caíque Severo, não desmentiu a informação. Disse apenas que as decisões sobre credenciamento são tomadas pelos organizadores do camarote e que são protegidas por contrato com cláusula de confidencialidade.
Infelizmente, não foi possível confirmar no iG todos os detalhes e o histórico dessas relações com o Terra para saber se existem outras razões para a proibição.

De qualquer forma, trata-se de restrição condenável à circulação de notícias (se bem que essas “informações”, embora gerem audiência, não passem de confete. São, na verdade, factóides criados em meio a aparições pagas e entrevistas muitas vezes constrangedoras de artistas contratados pelos organizadores para passar por lá).

A disputa pela audiência é boa para todos, mas deve se pautar por limites éticos. Sem afetar a exclusividade de transmissão ao vivo que adquiriu, o iG, como empresa jornalística que também é, deveria procurar facilitar o acesso à informação a todos, em igualdade de condições. Pela mesma razão, deveria, ainda, ser transparente em suas ações, tornando-as públicas, noticiando a respeito delas de maneira aberta e moderna, e não ocultá-las. Se deve ser evitado em qualquer instituição, o manto do sigilo quase sempre é um paradoxo numa empresa jornalística.

enviada por Mario Vitor Santos






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