"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
04/03/2008 18:39
A primeira vítima
Na cobertura da tensões envolvendo Colômbia, Equador, Venezuela e as Farc o que importa ressaltar neste momento é a dificuldade e a falta de meios dos jornalistas para lidar com a situação. Dependem de fontes militares, que são participantes do conflito, para obter as informações. O que conseguem é sempre filtrado, ou modificado, para beneficiar um lado. O jornalismo é presa fácil da contra-informação, uma especialidade do serviço secreto militar.
Nenhum jornalista consegue ter acesso à área e contar a história de maneira independente. É quase certo que os bastidores e o contexto do conflito fiquem ocultos por um bom tempo e talvez para sempre.
Dos escritórios, a milhares de quilômetros dos fatos, os jornalistas recorrem às análises de especialistas militares e diplomáticos. Nenhum deles é capaz de fornecer detalhes importantes que sirvam como elementos de previsão dos desdobramentos da crise. Várias perguntas permanecem sem resposta. Seguem algumas delas:
1) Como os colombianos sabiam da exata localização do porta-voz e principal negociador das Farc para a libertação de reféns, Raúl Reyes?
2) De quem é a informação de que Reyes fizera uma ligação por telefone satélite, o que forneceu a localização aos colombianos?
3) É fácil interceptar e localizar ligações por telefone satélite? Quem dispõe das condições para localizar essas ligações?
4) A localização teve alguma ajuda norte-americana? Qual? Foram usados equipamentos de observação como satélites, aviões-espiões e robôs?
5) Houve ajuda de informantes ou agentes infiltrados no solo?
6) Foi feita autópsia no corpo de Reyes?
7) Ele morreu em conseqüência de perfurações de balas ou do impacto da explosão de bombas?
8) Houve ou não invasão do espaço aéreo equatoriano?
9) Por que os militares colombianos não pediram autorização para entrar em solo do Equador, examinar a cena do ataque e retirar corpos de mortos?
10) O fato de Reyes ser o alvo tem a ver com seu papel na negociação da soltura dos reféns?
11) Neste caso, haveria uma intenção colombiana de interromper as negociações, nas quais Hugo Chávez aparecia como um líder humanitário?
12) Quais poderiam ser as razões de Chávez, ao expulsar o embaixador e todo o corpo diplomático colombiano na Venezuela e enviar tropas para a fronteira dos dois países?
Um número igual de questões poderia ser feito sobre as razões de política interna de cada país. O fato é que o clima é o pior possível para a obtenção de informações confiáveis. Numa disputa polarizada, em que os Estados Unidos e Cuba indiretamente entram em confronto, nesta nova Guerra Fria americana, a objetividade das informações e dos juízos é inevitavelmente afetada.
No caso do iG, o trabalho inicial foi feito da maneira rotineira. E o que falta fazer:
1. Falta um esforço maior para seleção e organização das centenas de notícias que chegam vão automaticamente para o ar.
2. Falta a criação de um local especial em que as notícias sobre esse tema sejam editadas com hierarquia de relevância e interesse.
3. Falta a criação de uma área de interpretação e análise desse pré-conflito, em que especialistas possam explicar e colocar os fatos em dúvida e perspectiva.
4. Falta recuperar e juntar informações sobre as raízes e o passado da disputa atual. Coisas básicas sobre o que são as Farc, seus líderes, sua história, suas reais ligações com o narcotráfico, o que eles falam de si e o que seus inimigos falam deles.
5. Falta a opinião do iG sobre o assunto. O iG tem que dispor de uma área de editoriais em que explicite com transparência o que pensa sobre os assuntos que divulga. Como o iG se posiciona neste conflito?
6. Falta arrumar os argumentos pró e contra cada um dos personagens envolvidos. Quem está certo? Uribe? Chávez-Correa? Farc? Lula? Fidel? Bush?
Todas as possibilidades estão abertas. A tensão pode diminuir, o que parece mais provável. Pode também se agravar e chegar até mesmo à guerra. É bom também não considerar que ameaças são apenas retórica vazia e inofensiva. Podem ser também profecias. Jornalismo é feito de muito planejamento e atenção.
A agressividade entre o presidente venezuelano Chávez e Uribe vem crescendo há anos. O que atiça esse fogo é o excesso de mentiras, bravatas e manipulações nas versões e ataques divulgados de todos os lados.
Para complicar mais a situação, em torno movimenta-se um conjunto incrível de interesses geopolíticos dos EUA, Cuba, Argentina e mesmo Rússia, como fornecedora de armas. A médio prazo, o potencial de generalização e radicalização é grande.
Diante disso, qualquer organização jornalística nacional tem que estar preparada para oferecer o melhor trabalho a seu público. É obrigatório que o leitor do iG tenha um relato direto dos países envolvidos, ou seja, que tenha acesso a reportagens com um olhar brasileiro, feito a quente e em contato direto com os fatos.
São necessárias reportagens de clima, conferindo a temperatura política nas ruas dos países mais diretamente envolvidos. Nesta e em outras áreas há grande trabalho a ser realizado. Quem estiver à altura dele alcançará status de grande veículo.
Como se sabe desde a declaração do senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, depois imortalizada pelo livro de Philip Knightley, a primeira vítima quando a guerra chega é a verdade. A declaração deveria ser entendida não como a constatação de uma fatalidade, mas como estímulo ao jornalismo, cuja missão de informar está acima de tudo, não importam quais sejam as dificuldades.
enviada por Mario Vitor Santos
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