"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

10/03/2008 21:10

Vídeos Incríveis e seus riscos

Recebi a seguinte mensagem da leitora Thais Fernandes, que se queixa da veiculação de um vídeo pelo iG.

"Senhor,
custa crer que os senhores estão dando divulgação a um vídeo sobre tortura infantil (criança de 2 anos em lava-jato). Não pude comprovar isso porque meus princípios impedem-me de assisti-lo.
Divulgar esse conteúdo como "vídeos incríveis" é, no mínimo, repugnante e viola a dignidade da criança. É evidente que a conotação não é jornalística. Do contrário, também seriam divulgadas fotos de menores utilizadas ou visitadas por pedófilos. Os senhores não pensam em fazer isso, não é? E por que não? Porque é preciso resguardar a dignidade da vítima e a empresa seria processada, por certo. Mas não têm receio de acontecer o mesmo no presente caso? Por favor, menos sensacionalismo e mais jornalismo."
Thaís Fernandes

De fato, o vídeo mostra imagens fortes. Uma criança é castigada pela mãe, que lhe joga jatos d’água num lava-rápido, enquanto a filha tenta livrar-se, sem sucesso, do aperto da mão que a segura. O tema é complexo.

A observação da cena pode ser chocante para muitos espectadores. Ela também pode, sim, promover algum tipo de dano à dignidade da filha, além do que eventualmente já tenha sido feito. Castigos infligidos pelos pais existem e podem ser incorporados ou assimilados pelo sujeito em seu processo de amadurecimento. São questões que, dentro de certos limites humanos, devem ser mantidos no âmbito da família.

Já a exposição de certas imagens para vários milhões de pessoas pode ter certamente conseqüências desagradáveis para a criança no futuro. A simples notícia de que aquela cena teve tanta exposição pode provocar ou agravar danos em sua auto-estima. Não basta pensar no sentimento de indignação que o assunto provoca entre os espectadores. Em primeiro lugar, é preciso considerar as conseqüências para a criança individualmente. No caso mais geral, a exibição de certas imagens também pode ter efeitos sociais positivos. Serve para chamar a atenção e provocar indignação contra violências que são efetivamente cometidas. Serve como alerta, como as imagens de babás e empregadas que praticam violências contra crianças e são filmadas por câmeras ocultas. Se a criança não é identificada nas imagens, nem vem a saber que aquela é uma cena em que ela é a vítima, danos ainda maiores talvez não sejam provocados pela divulgação do vídeo. Mas esse anonimato não é inteiramente garantido. Basta que alguém revele, ou que a informação seja de alguma forma descoberta, para que o incidente possa se transformar em pesadelo.

O pior é que o iG , por alguma razão, foi o único portal a divulgar as imagens de vídeo. A BBC (citada como fonte da informação) publicou apenas uma foto, com conseqüências bem menos fortes. O vídeo do iG foi extraído do site YouTube. Ou seja, houve uma ação voluntária do iG para colher essas imagens do site e divulgar para seus leitores com conseqüências eticamente condenáveis. Nem tudo o que está disponível na web deve ser oferecido aos freqüentadores deste portal.



Imagem da reportagem no iG. Clique aqui vê-la na íntegra

enviada por Mario Vitor Santos






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