"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

21/04/2008 22:31

A entrevista de Dilma e o futuro (do iG)

O iG surpreendeu seus leitores neste domingo: publicou notícia exclusiva e relevante sobre política, com direito a manchete da primeira página.

A rotina foi rompida pela publicação da entrevista “pingue-pongue” exclusiva concedida pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, ao jornalista do iG Ricardo Kotscho.

O mais relevante da entrevista é que nela (leia aqui) a ministra, em meio às conhecidas evasivas, admite, de maneira mais clara do que fazia até agora, a possibilidade de vir a ser candidata a presidente da República nas próximas eleições.

Tão importante quanto o seu conteúdo, porém, é o fato em si de a entrevista ter acontecido e de ela ter sido publicada com tanto destaque (na noite de segunda-feira, o iG ainda mantinha chamada na capa para o evento).

Nesse episódio, o iG encara uma opção sedutora, embora pouco realizada, para a sua personalidade como veículo: a de estruturar-se em torno de um jornalismo próprio, autônomo, insuflado pela busca de informações exclusivas.

O iG vislumbra a possibilidade de vir a se desenvolver plenamente como veículo jornalístico. Não mais principalmente como mero repetidor de informações obtidas por terceiros e parceiros, mas como origem de furos relevantes, disputando com os jornais, revistas, emissoras de TV, rádio e outros portais.

Seria ideal que a vinda de Ricardo Kotscho não seja uma atitude isolada, nem a resposta à situação criada pela saída de Paulo Henrique Amorim, mas que fosse parte de um esforço jornalístico maior.

Sua carreira de jornalista prestigiado poderia, neste caso, servir também como exemplo, para impulsionar o iG em direção à reportagem, à potência do jornalismo.

Seria excelente se Kotscho pudesse ser, além de mais um colunista do portal, seu “primeiro repórter”, inspirando um time mais numeroso de jornalistas voltados para perseguir a notícia.

Com seu estilo e trajetória, Kotscho poderia muito bem abrir espaço no iG para a grande reportagem, para os relatos humanos, para os temas e personagens esquecidos.

Ainda não há, porém, outros indícios de que o iG planeje evoluir como veículo nesse sentido e vá adotar as ações necessárias para competir e, quem sabe, suceder os veículos tradicionais.

Certamente, seria isso que os jornalistas do iG gostariam de ver.
Quanto à entrevista de Kotscho com Dilma, faço as seguintes ressalvas:

1. o iG deveria informar na abertura da entrevista que Kotscho foi integrante do governo Lula, sendo amigo do presidente e de muitos membros de sua equipe;

2. a entrevista é excelente ao explorar um dos temas mais relevantes, que é a questão da candidatura presidencial de Dilma, mas não adentra outras áreas incômodas ao governo. Trata apenas ligeiramente dos cartões corporativos e não toca em temas como o recente aumento dos juros ou a venda da Brasil Telecom para a Oi (mais relevante ainda sendo o iG propriedade da BrT), para citar apenas dois exemplos;

3. este ombudsman não tem competência para ser professor de português, mas nota, no texto da entrevista, da palavra “taxado”, com “x”, onde deveria haver um “tachado”, com “ch”.

4. a produção de fotos em reportagem do iG é rara e meritória, mas o trabalho tem falhas de iluminação e sombras.

enviada por Mario Vitor Santos






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