"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte
16/04/2008 19:46
Colina do Sol: pior do que a Escola Base
O norte-americano Richard Pedicini, um dos envolvidos pela polícia, promotoria e imprensa no caso Escola Base, tornou-se um vigilante de práticas semelhantes nas coberturas jornalísticas no Brasil.
Segunda-feira, quando todas as atenções do país estavam voltadas para o chamado caso Isabella, Pedicini fazia percurso oposto. Foi detido por algumas horas pela polícia na cidade gaúcha de Taquara, quando se manifestava diante do fórum municipal.
Estava ali para acompanhar e exigir providências a respeito do chamado caso Colina do Sol, em que dois casais, um deles de americanos, estão há quatro meses presos por acusações de pornografia infantil, tráfico de crianças para os EUA e pedofilia. Há pouco mais de um mês, segundo um jornal local, uma única acusada, de mais de 70 anos, conseguiu o direito a prisão domiciliar.
No total, há sete pessoas acusadas em conseqüência da chamada Operação Predador desencadeada pela polícia gaúcha em dezembro passado. A operação caiu sobre a comunidade naturista de Colina do Sol. Isso foi usado como contexto para as acusações. Até agora a polícia não conseguiu provar nenhum dos supostos crimes.
Trata-se, segundo Pedicini, de um provável caso de crime de imprensa. Os veículos de comunicação deram curso às acusações e fustigaram a histeria em torno do caso. Este obedeceria ao mesmo roteiro dos anteriores, como mostra o relatório de Pedicini a respeito do assunto, enviado ao Ouvidor Nacional dos Direitos Humanos. Confiram um trecho:
O ritual valoriza a rapidez, a quantidade e as severidade das acusações. É uma corrida -- cada repórter quer ser o primeiro. Não importa saber a verdade, e sim divulgar a matéria. Quando uma acusação é desmentida, encontra-se outra maior. A imprensa se apóia na polícia, e a polícia conta com o clamor público para dotar o processo de uma inércia irresistível.
Num caso pré-julgado no tribunal de imprensa, prender os acusados para os manter calados é um bom começo. Quem poderia defender o acusado também vai preso: neste caso, as mulheres, contra quem não há nem acusação de peso, quanto mais provas. Quem defende os acusados também vira alvo. Três pais que dizem, junto com os filhos, que os crimes nunca aconteceram foram acusados de conivência. Um dos pais levou os filhos à Corregedoria para fazer queixa do terror e dos tapas a que foram submetidos pelos investigadores. Foi denunciado outra vez, por falsa acusação.
Quando os réus são absolvidos, abundam os lugares-comuns: os ricos não vão presos no Brasil; a polícia prende e a justiça solta. Fala-se em falta de provas, insinuando que os réus eram culpados, mas escaparam por uma coisinha mínima. Às vezes a mídia se digna a dar o outro lado, mas de que forma? Para cada acusação da polícia que foi divulgada dez vezes como fato, aquilo que o acusado comprovou com uma pilha de documentos e uma legião de testemunhas aparece escondido no jornal como alegação.
O direto de resposta, o outro lado, não permite dizer a única verdade que esclarece o que aconteceu: o delegado mentiu. Quando muito a imprensa se limita a lamentar o erro.
Ora, o que aconteceu no caso Colina do Sol não foi um erro, foi um crime. Quatro presos, sete acusados, tudo inicialmente para levar a cabo uma vingança particular e criar fama para um delegado. Depois mais crimes, para esconder os iniciais: os erros e calúnias da polícia, a manipulação de testemunhas e da imprensa, a falta de parâmetros éticos e morais. Restaurar as reputações dos acusados é impossível. Mas pelo menos pode-se tentar. Para ser eficaz, essa tentativa tem não que dar o outro lado, nem explicar o erro. Tem que alardear a verdade, em alto e bom tom.
Essa é a proposta deste relatório, diz Pedicini, que, mais adiante, cita o papel da imprensa no caso:
Assim, o delegado fez de tudo para dar relevo à Operação Predador, inventando que os presos faziam parte de uma rede mundial de pornografia infantil, que estavam sendo investigados pelo FBI, e assim por diante. Tudo jogo de imprensa, pois não há vestígio desses liames na denúncia. Inobstante essa ausência, continuaram as insinuações; documentadas abaixo sob o título Acusações no tribunal da imprensa.
Seguindo a trilha apontada pelo delegado, a imprensa não hesitou em misturar inocentes e culpados. Um jornal chegou a publicar dia 12 de janeiro a manchete Casal Confessa, com a fotografia de Fritz e de Bárbara. Apenas uma leitura meticulosa revelava que a manchete se referia a um caso inteiramente diferente, em que os acusados aparentemente admitiram ter divulgado material pornográfico.
(...)
A psiquiatra Heloísa Fischer Mayer, descrita como psiquiatra forense pelo delegado, faz estágio no Ambulatório do Instituto Psiquiátrico Forense desde fevereiro de 2007.
A Folha Online descreve Mayer como especialista em violência doméstica, mas enquanto o currículo dela informa que em 2005 ela se especializou em Psicoterapia da Infância e Adolescência pelo Centro de Estudos Atendimento e Pesquisa da Infância e Adolescência (Ceapia), o boletim da entidade informa que somente em 28 de maio de 2007 realizou reunião científica comemorativa pelo reconhecimento do Curso de Especialização em Psicoterapia da Infância e Adolescência pelo CFP. Assim, o curso não era reconhecido quando ela estudou.
O iG, em suas duas únicas reportagens sobre o caso, extraídas da Agência Estado, não deu adequadamente a versão dos acusados, como pode ser visto em Polícia prende quatro suspeitos de pedofilia no RS e Justiça nega liberdade a acusados de pedofilia no RS.
enviada por Mario Vitor Santos
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