"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
14/04/2008 18:44
Falta humanidade ao jornalismo policial
SÃO PAULO - Dezesseis dias após a morte de Isabella Nardoni, de 5 anos, ocorrida no dia 29 de março, a polícia ainda não tem as respostas de questões fundamentais para o esclarecimento do crime.
Essa é a abertura da reportagem que o iG publica hoje sobre o chamado caso Isabella. Na quinta-feira passada, os meios de comunicação divulgaram que policiais diziam que já haviam resolvido 99% do caso. No dia seguinte, desmentiram ter resolvido os 99%. Até agora, não revelaram nem 1% do que disseram ter esclarecido.
Neste processo, prenderam o pai e a madrasta sem qualquer justificativa forte o suficiente. Após alguns dias os suspeitos foram libertados. Os legistas fizeram mais de cinco perícias no apartamento, no edifício e na vizinhança.
Agora, sem notícias, sem investigação independente, o iG mantém o assunto aquecido na capa do portal. Publica uma reportagem requentada intitulada Saiba quais são as questões que a polícia precisa esclarecer sobre o caso Isabella. Se a polícia se cala, todos emudecem. Se fala, todos ecoam.
Não se sabe se o caso caminha para ser mais um episódio de crime de imprensa provocado pela guerra de audiência das redes de TV e sua capacidade de arrastar consigo quase todos os outros veículos. O enredo de acusações, comoção, aprisionamento e confusão é, porém, parecido.
Dessa vez, diferentemente do que ocorreu no caso semelhante da Escola Base, a maioria dos veículos não faz mais fazer acusações criminosas abertamente. Evitam exposição a novos processos e indenizações. Ainda há, porém, policiais que chamam suspeitos de assassino em público.
Se não são mais tão ingênuos, não quer dizer que os jornalistas tenham deixado de influenciar a chamada opinião pública. Dedicam-se a investigar certas circunstâncias que poderiam mostrar o caráter criminoso dos envolvidos. Ela é madrasta, o que já diz tudo. Ele gosta de carros de luxo, teria temperamento explosivo, não possui vínculo empregatício, vive à custa do pai.
Diante da histeria da disputa por índices de audiência, o correto do ponto de vista da ética jornalística seria ir para o distanciamento, a interpretação e a dúvida. Isso não quer dizer optar pela frieza jornalística. Dos mais de seiscentos (600, repito) textos jornalísticos que este iG publicou não há uma reportagem de perfil humano dos envolvidos. Ninguém descreve a história de vida dos suspeitos, falta um álbum de fotos de sua infância, não há depoimentos de seus melhores amigos e de gente que conviveu proximamente deles. É uma cobertura sobre pessoas, mas falta humanidade a esse jornalismo.
enviada por Mario Vitor Santos
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