"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

23/04/2008 16:57

Jornalismo do iG: mais “quente” ou mais “frio”?

Ao comentar ações do iG para ampliar sua oferta de reportagens originais e exclusivas, analisei entrevista de Ricardo Kotscho com a ministra Dilma Roussef, mas deixei de mencionar o trabalho que vem sendo realizado pelo jornalista Paulo Moreira Leite. Mariana Castro, editora-chefe do Último Segundo, o setor jornalístico do iG, chamou-me a atenção a respeito.

Moreira Leite está colocando sua experiência a serviço de um trabalho diferenciado de reportagem. Seus textos, como a série sobre a situação da economia do país, vista a partir dos afetados por ela, são redigidos na primeira pessoa. Ele dá voz aos personagens da notícia e está sempre à procura de um enfoque novo, coisa que o iG necessita muito em seu esforço de construção de uma personalidade jornalística própria.

Moreira Leite faz um tipo de jornalismo que mescla informação e opinião. Esse híbrido coloca uma dificuldade para quem prefere, como eu, a separação mais rígida entre informação e opinião, como no clássico modelo da “velha” imprensa.

O advento da internet mexe com as bases do jornalismo e talvez acabe favorecendo os que já praticavam um estilo mais posicionado. Há inclusive algumas pesquisas, como um levantamento recente realizado pela Associated Press Managing Editors e o Instituto Reynolds de Jornalismo, que apontam que a maior parte dos internautas prefere que os repórteres explicitem suas preferências nos textos.

Na minha opinião, a busca da imparcialidade e do distanciamento, essas atitudes “frias” que aproximam o jornalismo da Justiça, acabam prejudicadas com o maior envolvimento do repórter. Como se sabe, a Justiça é cega. Desconhece as particularidades das pessoas, que lhe são invisíveis. Ser justo é ter a virtude da “pura medida imparcial, sem sentimento e sem afeto”, como ensina o professor Francis Wolff, que tratou da Justiça (não do jornalismo) em palestra recente no Brasil. Como a Justiça, o jornalismo deve cultivar a prudência. Num conflito, deve evitar optar por um lado. O repórter deve se esmerar para não favorecer nem um nem outro, tratando cada um como se tratasse si mesmo.

O jornalismo, porém, não é só a frieza da Justiça. É composto também de qualidades mais “quentes” como a compaixão, a generosidade e até a amizade (embora esta, apesar de existir, seja também freqüentemente ocultada pelos jornalistas). Tais sentimentos são indispensáveis ao jornalismo, mas favorecem o prejulgamento e a tomada de lados numa investigação que deve ser tão equilibrada e eqüidistante quanto possível.

Na sexta-feira passada, por exemplo, o iG publicou como manchete de capa o seguinte título: “Casal foi indiciado por suas contradições”. A manchete apoiava-se em texto de Paulo Moreira Leite que apoiava a versão dos delegados acusadores do casal Nardoni.

A alegação de que há contradições nos depoimentos de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá tem sido divulgada pelos investigadores policiais para apoiar provável pedido de prisão preventiva. Mas deveria haver igualdade de condições para a defesa dos Nardoni. Ela também existe e contesta com vigor a existência ou a relevância dessas contradições. A versão deles, porém, raramente é divulgada e, quando isso ocorre, recebe muito menos destaque.

Agindo assim, o iG soma-se à multidão de acusadores do casal, quando, a meu ver, deveria conter-se, contemplando argumentos e conclusões de acusadores e também de acusados. É verdade que isso não gera muita simpatia, mas jornalismo e popularidade às vezes não caminham juntos. O público raramente tem interesse profundo pelo noticiário, que só empolga as grandes massas quando se torna disputa carregada de melodrama. O jornalismo poucas vezes tem tanto apelo às multidões, em geral apáticas. A tentação de aproveitar é grande, aderindo e liderando o sentimento de indignação. Isso é ainda mais verdadeiro para quem atua na reportagem, atividade relativamente mais “quente” que a dos editores, a quem cabe mais pesar, duvidar e distanciar. Sendo frio e buscando a imparcialidade, o jornalismo está longe de ser perfeito, mas sem eles, se aproxima do pior dos males.

Seja como for, a contribuição de Moreira Leite ao jornalismo do iG é bem mais vasta e positiva do que sugerem essas ponderações. Isso pode ser conferido na lista de suas reportagens mais recentes (leia aqui).



enviada por Mario Vitor Santos






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