"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais

28/04/2008 23:39

O espetáculo da imperícia

A fase de depoimentos no caso Isabella passou. A cobertura da mídia tem sido de excesso e pobreza. Excesso de assédio e manipulação de emoções. Pobreza de jornalismo. Pai e "madrasta" não foram tratados como suspeitos, o que a lei determina.

Vazamentos de notícias da polícia e outros envolvidos dirigiram o "noticiário", especialmente das televisões que, em guerra, deram o tom para o conjunto. As perícias baseiam-se em novas técnicas e instrumentos, razão de ufanismo para comentaristas embasbacados quando lhes vendem a excelência de geringonças espalhafatosas.

As "reconstituições" merecem destaque. Há as remontagens ficcionais feitas pelas TVs, com modelos e locações. Essas deveriam ser banidas por editores conscientes.

Há também as "reconstituições" feitas por peritos em meio a valentões de preto e óculos escuros posando para as câmeras. Como podem afetar competência em meio a tanto desperdício de tempo, de recursos e de assunto?

Um jornalismo sério deveria questionar os peritos. Submeter suas técnicas ao crivo de outros. Alguém ouviu Ricardo Molina e seus colegas da Unicamp? Mas quem se arrisca a duvidar da polícia, se ela é a grande "fonte"?

Os acusados terão direito a realizar a sua própria perícia alternativa?

Quanto aos policiais e jornalistas, já passou da hora de reverem suas éticas. A polícia tem que estabelecer procedimentos de neutralidade e segui-los com rigor e punição aos transgressores, geralmente instalados na cúpula. Idem para o Ministério Público.

Os jornalistas deveriam ser remetidos de volta à escola para reaprender que também têm valores a preservar. A mídia está perdendo a credibilidade que lhe dava supremacia para falar ao público e não apenas entre os mais escolarizados.

Editores não devem ser cúmplices, mas reagir à manipulação e não apenas quando ela vem dos outros veículos.

O público precisa ter uma voz nesse "debate". É obrigação dos veículos abrir espaço de discussão de seus métodos. Várias parcelas repelem a manipulação dos veículos. Recusam-se a prestigiar o espetáculo imposto sem consulta e sem critério. Mas como debater algo quando os envolvidos são quem deveria organizar o debate?

"Noticiar" é sempre questão de decisão sobre a justa medida, opção que só pode ser tomada pelos veículos e seus jornalistas. É preciso, além disso, justificar as decisões com argumentos racionais baseados em valores. Antes que o boicote, ativo ou passivo, venha e cresça. A audiência de hoje, colhida por meios espúrios, ameaça sacrificar a de amanhã.

enviada por Mario Vitor Santos






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