"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte

02/04/2008 21:12

O pai, a madrasta e o fantasma

A cobertura jornalística da morte da menina Isabella Nardoni não vai bem até agora no iG.

O assunto recebe destaque em manchetes seguidas, pois atrai grande curiosidade.

Falta, porém, equilíbrio.

A menina, de cinco anos, morreu no sábado, em circunstâncias ainda não esclarecidas. O corpo foi encontrado no jardim do prédio em que seu pai morava com a atual mulher, na zona norte de São Paulo.

O problema da cobertura é deixar de cumprir o que é mais importante no jornalismo: equilíbrio, eqüidistância. O iG tem dado pouco destaque para o “outro lado”, ou seja, para as versões do pai e da “madrasta”.

O trabalho de reportagem do iG tem sido excessivamente dependente das versões divulgadas pela polícia.

É verdade que esse não é um problema só do iG.

A falta do “outro lado” em reportagens policiais afeta generalizadamente os veículos jornalísticos brasileiros. Mas os outros veículos não vêm aqui ao caso.

O que interessa é que o iG veicula fartamente as versões dos agentes da lei. Os desmentidos do pai e de sua mulher atual também foram publicados, mas não têm nem de longe o mesmo destaque, nem tantos detalhes.

Em casos como esse, há um desequilíbrio no fluxo de informações para os repórteres. A polícia fala demais. Os acusados se retraem.

Na prática, o trabalho de repórteres e editores acaba dando mais credibilidade à polícia do que aos suspeitos. O jornalismo policial tem uma conhecida tendência oficialista.

Os repórteres disputam o furo e a exclusividade. Fazem de tudo para ter acesso aos policiais que detêm as “informações”. No afã de divulgar na frente e ampliar a audiência, os chefes também acabam responsáveis pela distorção.

Neste caso, o pai e a “madrasta” (termo usado na manchete do iG hoje) tornaram-se, aos olhos da polícia, os principais suspeitos da morte.

Talvez os investigadores policiais tenham boas razões para pedir, como fizeram nesta quarta-feira, a prisão temporária do pai, o consultor jurídico Alexandre Nardoni, e da “madrasta”, Ana Carolina Trota Peixoto Jatobá. A Justiça acabou decretando a prisão mas as razões ainda não estão nada claras.

Falta apurar com rigor inúmeros detalhes e checar sempre as versões, confrontando-as com outras fontes e submetendo-as ao exercício da dúvida permanente:

Numa mesma reportagem do iG hoje, por exemplo, o delegado que comanda as investigações afirma que a queda não pode ser a causa da morte. Já o diretor do Instituto Médico Legal afirma que com toda certeza foi.

A existência de sangue no prédio também não está ainda bem estabelecida. Há diversas versões para os supostos gritos da menina.

O avô (pai da mãe) disse que não foi um acidente, mas defendeu muito o pai, e isto não está em evidência.

O advogado do pai da menina afirma que ele nega com veemência a autoria do crime. Isso também tem sido muito pouco destacado em comparação com o volume das suspeitas lançadas contra pai e “madrasta”.

Há reportagens extensas em que a negativa paterna é simplesmente omitida. O “outro lado” no jornalismo não é questão meramente formal, um mero registro para constar.

Ele tem que ser cumprido com rigor extremo. Deve existir nas edições em que textos de diferentes versões se defrontam. Deve existir também internamente aos textos, em que a um ataque deve corresponder ao menos uma menção à outra parte que nega.

Links para reportagens com outras versões são importantes. Devem ser usados sempre que há um ataque.

De qualquer forma, o caso parece dominado por detalhes não esclarecidos e versões não registradas. Mais do que nunca são necessários prudência e rigor.

Nessa disputa, os afobados já foram derrotados. Vencerá quem não arredar pé dos princípios e das técnicas de apuração e edição clássicas do jornalismo. Por ora, o espectro da Escola Base continua rondando o caso da menina Isabella.

enviada por Mario Vitor Santos






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