"Antes, pensava que nem valia a pena responder rumores absurdos. Hoje é preciso reagir contra todos os boatos"
Do estrategista republicano Todd Harris, no site BlueBus

23/05/2008 19:35

1968: em algum lugar do presente

O especial que o iG publicou sobre Maio de 1968 apresenta um panorama de opiniões, “memórias” e “fatos” que tentam reconstituir o que foi aquele ano e dimensionar o seu legado. Para isso, o iG reuniu depoimentos, mais ou menos extensos e interessantes, com Zuenir Ventura, Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, Zé Celso Martinez Corrêa, Heloísa Buarque de Hollanda e outros.

Na cobertura, destaca-se o trabalho dos repórteres Jair Stangler e de Carolina Ribeiro Pietoso, esta a partir de Londres. Fazem uma visita aos “principais acontecimentos” de 1968 e tratam, em reportagens, de expor uma avaliação sobre temas comportamentais, como a libertação sexual, e assuntos políticos, tratando das idéias que surgiram naquele ano.

O conjunto de entrevistas e reportagens traz à tona a disputa pela apropriação das narrativas dos fatos e do significado deles. Tanto os conjunto de reportagens como as opiniões dos blogueiros do iG não permitem juízos definitivos. O trabalho de edição mantém um aparente distanciamento, com simpatia pelas idéias revolucionárias atribuídas àquela geração. O único texto que dá voz a conservadores, na França e na Bélgica, ganhou título claramente “68”: “Ainda há quem diga não à revolução”.

As entrevistas com os personagens brasileiros tentam um reencontro com aqueles tempos, o que é impossível. A de Zuenir Ventura, por exemplo, teve que ser dividida em quatro partes. Juntamente com a de Heloísa Buarque de Hollanda, compõe um quadro talvez muito mais zona sul carioca, e mais intelectual, do que o movimento que gerou a passeata dos 100 mil “realmente” tinha.

Os personagens atrevem-se em avaliações que jamais ousariam fazer em outras épocas. Até Zé Celso Martinez Corrêa, que desde os anos 60 persegue uma experiência artística aguda, ao seu jeito, queixa-se do cansaço atual daquela geração, empenhada em abandonar os ideais que teve.

Há, portanto, uma unidade entre as partes desse trabalho do iG. Até as audácias dos entrevistados são determinadas pelo que é moda pensar em cada momento. A julgar pelo que se lê no especial sobre Maio de 1968, ninguém hoje defende mais o comunismo soviético, que saiu de moda, nem a revolução armada, que virou anátema.

O melhor de tudo é a aparição de um vigor jornalístico ainda discreto, mas palpável. O Último Segundo consegue investir na produção de reportagens de mais alcance sobre tema relevante, estimulando a reflexão e o debate.

O passado é irrecuperável. Aquilo que convém a maio de 2008 determina as idéias dos personagens de 1968. Maio de 2008 também é o mês em que a concentração de esforços do jornalismo do iG dá sinais de que pode seguir numa direção mais clara. Resta acompanhar. E torcer por novos episódios.

enviada por Mario Vitor Santos






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