"Interatividade e imagem são marcantes, mas não imitem na internet o que vocês vêem na TV. Multimídia não é TV"
De Randy Covington, no Congresso Brasileiro de Jornais
10/05/2008 08:49
A remissão e seu labirinto
Reportagem hoje no iG sobre as últimas revelações do dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso traz o seguinte título: "Presidente do Senado quer Aparecido e assessor de Álvaro Dias em CPMI".
Como se sabe, investigações da Polícia Federal e do Instituto de Tecnologia da Informação levantaram indícios de que o autor do vazamento do "dossiê" (como o chamam a mídia e a oposição ao governo), ou "banco de dados" (de acordo com o Planalto) seriam o secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires, e o assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), André Fernandes.
O texto traz uma referência importante, mas que pode ser misteriosa, feita por Garibaldo Alves, presidente do Senado, a respeito das ações da Comisão Parlamentar Mista de Inquérito, convocada para investigar o episódio: "Eu acho que deve convocar os funcionários, eles devem ter alguma coisa a dizer além do que já disseram".
Nesse caso, os editores do Último Segundo deveriam imediatamente oferecer uma remissão para o que Pires e Fernandes já disseram e o próprio iG já publicou. Eu, por exemplo, não me recordo do que falaram. Gostaria de ler de novo para ver se me lembro ou se não sabia. Mas o iG não facilitou a minha vida.
Falta, portanto, uma visão maior de edição, que procure, sempre que possível, transmitir a informação mais completa ao leitor e antecipe as suas necessidades, muitas vezes criadas pelo próprio noticiário do iG.
É inegável que nas principais coberturas o iG tem se esforçado para criar listas de remissões para outras reportagens passadas que forneçam o contexto dos fatos. Esses textos, quadros e gráficos recuperam o que já aconteceu, oferecem informações que podem ajudar a entender um acontecimento.
Se o didatismo está presente em todas as formas de jornalismo, ele é vital para quem deseje prosperar na internet, em especial no Brasil, que incorpora um contingente cada vez maior de usuários de menor escolaridade.
A boa edição na rede exige, porém, muito trabalho, além de grande atenção aos detalhes. São operações repetidas de inserção dos links adequados. Suas técnicas requerem planejamento de árvores de edição que estimulam o encadeamento contínuo da leitura, de forma ao mesmo tempo ampla e individualizada. Um texto dá em outro, que aponta outro caminho e assim por diante. O leitor se informa mais e fica mais tempo no site. O iG, obviamente, também ganha com isso.
Nesse trabalho, são obrigatórias programas de operação fácil e rápida. Exige também jornalistas preparados e atentos. Só que as escolas de jornalismo ainda não dão formação adequada aos futuros profissionais dessa área.
O uso das remissões é ainda mais essencial para sites que, como o iG, usam muitas vezes reportagens de terceiros, com limitações contratuais de tamanho por unidade publicada. Os textos são em geral mais resumidos, com menos informações. É necessário, então, remeter para outras reportagens, para completar o quadro, dando a notícia por inteiro, e se aproximar da qualidade existente nos outros grandes veículos da mídia tradicional. A sensação de satisfação que leitor deve obter fica mais fragmentada. Remete-se muitas vezes para reportagens que têm informações repetitivas. O processo de remissões pode em tese ser eterno, mas tem um limite (número e tempo dos editores, embora os programas possam ajudar muito) e vai perdendo em cada etapa eficiência e clareza na conexão com o leitor. Talvez no futuro possa ficar cada vez mais mais granular.
É possível, porém, avançar muito no atendimento das necessidades informativas dos leitores, inclusive no plano mais individual. Seria importante mapear os percursos e interesses de cada um, e fazer remissões cruzadas a partir dos hábitos detectados, como fazem, por exemplo, o Google a a Amazo,n em relação a produtos adquiridos.
O iG ainda está engatinhando nesse terreno. Muitas vezes não aproveita bem o material que ele mesmo já veiculou sobre um certo tema. É o que acontece hoje em uma reportagem da cobertura do caso do suposto dossiê. Ela começou na capa. E parou num ponto sem saída.
[Em tempo: se este texto não tem links, é porque este ombudsman não conseguiu inseri-los no texto, seja por seu desconhecimento da ferramenta, seja por sua temporária desativação no publicador]
enviada por Mario Vitor Santos
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