"As informações recentes dando conta do meu falecimento são altamente exageradas"
Steve Jobs, citando Mark Twain, após nota falsa de sua morte

02/05/2008 13:37

Mídia e polícia: fraquezas complementares

A crônica das trapalhadas de certos policiais nas investigações do caso Isabella Nardoni já havia incluído até o caso da delegada que, num acesso, xingara em público o suspeito Alexandre Nardoni de "assassino", tendo sido em seguida criticada por seus superiores e devidamente afastada do caso.

O clima apaixonado com que as investigações são conduzidas chega agora ao auge com a divulgação do relatório da delegada que realiza o inquérito. A representação encaminhada ao Ministério Público tem tom emocional. Desvia-se para fazer apreciações ofensivas aos suspeitos. Perde a cerimônia e abandona o caráter técnico e objetivo que deveria manter.

Com base em reportagem de "O Estado de S.Paulo" o iG registrou o tom inusitado da autoridade. Este relatório é o melhor serviço à defesa dos suspeitos que a polícia poderia fazer. Justifica o pedido de prisão preventiva dos suspeitos com base num estado de "comoção social" que estaria afetando o país.

O mais desagradável é constatar que são autoridades com esse grau de despreparo que ditam, em última instância, o tom da cobertura jornalística, por meio de vazamentos, favorecimentos e insinuações.

Trabalham para criar um ambiente de linchamento policial e contam com a excitada cumplicidade de jornalistas, especialmente editores e seus chefes. Estes deveriam aferrar-se ao que ensinam as técnicas jornalísticas mais básicas. O problema das técnicas jornalísticas não é sua dificuldade. É que para serem aplicadas demandam esforço, competência, clareza de valores e coragem.

O grande jornalismo brasileiro é, portanto, atrasadona obediência a essas técnicas. Nos momentos mais importantes, a mídia não acredita, não confia e não leva a sério ações relativamente simples como checagem rigorosa e equilíbrio na audição de todos os lados.

Em troca de audiência, facilmente se abandonam o distanciamento e a imparcialidade. As televisões comandam. Seus repórteres têm acesso à cúpula da polícia e a toda a sua estrutura. Ávidos de publicidade e poder, polícia e imprensa logo rompem o sigilo decretado pela Justiça, o que nunca é apurado.

O padrão resultante é coerente com as acusações que seria a polícia infiltrada por uma mentalidade justiceira. Vendem as mágicas milagreiras da modernidade técnica das perícias, mas, na verdade exercem, métodos atrasados de manipulacão indutores de ritos sumários de destruição moral e psicológica. Polícia e imprensa, fracas tecnicamente, unem-se e assim simplificam seu trabalho, tão essencial quando é realizado como deveria. Neste quadro, o iG vem fazendo um esforço, especialmente nos últimos dias, mas ainda não mostra segurança, especialmente na obtenção de informações, para se diferenciar do tom geral.

Veja abaixo o vai-vem das manchetes sobre a suposta detecção de sangue e vômito pelos peritos e o uso que a polícia fez dessa notícia, que, segundo os advogados do casal, é falsa.

18 de abril
UOL
Polícia diz que havia vômito na camisa do pai
G1
Laudo revela que havia sangue de Isabella no carro do pai

22 de abril - iG
Delegados não usaram laudos para interrogar

25 de abril - iG
- Para especialistas, provas não fecham caso Isabella
- Laudo não prova sangue de Isabella no carro, diz defesa

26 de abril
Casal não explica vômito e sangue em depoimento

28 de abril - iG
Inquérito pode ser questionado, dizem advogados do casal Nardoni

29 de abril - G1
Parte da perícia foi usada incorretamente em interrogatório no caso Isabella

Dia 30 de abril - iG e UOL
Laudo não confirma sangue nem vômito de Isabella

enviada por Mario Vitor Santos






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